Ano Bissexto, ou o experimento dos nossos instintos

por max 28. fevereiro 2012 12:56

 

Vejamos: coloque duas pessoas em um apartamento pequeno, feche os dois ali e deixe que explorem a intimidade entre eles. A isso, agregamos uma câmera cinematográfica, uma câmera principalmente fixa, discreta, que não se altere, que não julgue nada, que não faça nada além de olhar. Estas duas pessoas devem ser as mais reais possíveis. Ou seja, nada de Brad Pitt nem Angelina Jolie. Gente comum e rotineira, gente que não está na frente da câmera para mostrar a beleza de seus corpos, sua perfeição, sua arte erótica. Aqui o que importa é sentir-se próximo da realidade. Ela, a moça, não será atraente nem sequer muito conhecida. Com ele, será o mesmo. As cenas de sexo, muito explícitas (aqueles que forem muito sensíveis para este tipo de imagens, melhor não se aproximarem). Porque, além de tudo, haverá sadomasoquismo, porque iremos longe. E por quê? Porque dentro de nós estão latentes desejos profundos, infinitos: dentro de nós pulsa a necessidade do prazer, a necessidade da morte, esse lugar, a morte, onde todo o sofrimento termina. Morrer, se observarmos do ponto de vista de Freud, é um prazer, é o maior dos prazeres, porque todas as necessidades, todos os desejos a serem satisfeitos estão reprimidos, controlados pela cultura. Isso quer dizer que a sociedade predomina sobre a liberdade. Já sabemos disso, pois desde Rousseau se fala do contrato social. Esse contrato social, necessariamente, nos restringe. Não podemos deixar todos os nossos desejos com rédea solta. Nosso corpo deve ser controlado. Assim, nossos dois personagens, ali trancados, cruzarão as fronteiras, irão além do que o contrato social estipula e começarão a descobrir-se. Sim, de alguma forma, isso nos lembra O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci, mas ao invés de Marlon Brando, ao invés de Maria Schneider, teremos Mónica del Carmen e Gustavo Sánchez Parra e, no lugar de Bertolucci, está o canadense nacionalizado mexicano Michael Lowe. Contudo, apesar das semelhanças, Lowe centra sua atenção em Laura (Mónica del Carmen), no silêncio dessa moça de 25 anos, jornalista, nascida no estado mexicano de Oaxaca e que foi viver, totalmente sozinha, na Cidade do México. Presenciamos assim o rosto do isolamento, da falta de comunicação, da clausura. O rosto que foge das máscaras e, certas vezes, vai em busca de encontros casuais, de uma noite só. Mas, ainda assim, ela continua adormecida e ficará assim até que encontre Arturo (Gustavo Sánchez). Ele, em seus gestos, em sua profunda melancolia, despertará a moça e a fará começar a colocar o dedo na ferida em seu passado, em sua história (relacionada com a data de 29 de fevereiro), com suas culpas e dores mas, sobretudo, com seus profundos instintos, ali, onde somos bestiais, onde somos tristezas de morte, onde somos prazer puro. Pronto, o experimento começa.

Assim é Ano Bissexto (Año Bisiexto, 2010), de Michael Lowe. Delicie-se com ele, nesta quarta-feira, 29 de fevereiro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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O Pequeno Maratonista, uma corrida entre sonho e pesadelo

por max 24. fevereiro 2012 09:29

 

Quando o pai de Budhia morreu, sua mãe não sabia o que fazer com ele. Budhia tinha apenas três anos. Ela, uma mulher das mais baixas classes da Índia, acabou fazendo o que muitas mães que vivem na miséria fazem: vendeu Budhia por 800 rúpias, o equivalente a cerca de 20 dólares. O futuro de um garoto vendido não é o melhor, não. Antes de ser tema de filme de Bollywood, o destino desses meninos percorre os mesmos caminhos mostrados por Danny Boyle em Quem Quer Ser um Milionário (Slumdog Millionaire, 2008). Por sorte, e isso aparece em um primeiro momento, Biranchi Das, treinador de judô e secretário da associação local do esporte, se fixou no garoto Budhia. Melhor, não propriamente no menino, mas sim na capacidade de correr que aquele garoto tinha. Sim, ele era bom corredor e Biranchi decidiu treiná-lo. No final, ele acabou comprando-o pelas mesmas 800 rúpias e Budhia começou a treinar, a comer melhor, a viver melhor. Poderíamos dizer que o garoto teve sorte de ganhar uma nova vida, graças a sua capacidade de correr. Mas aquilo que parecia um filme com final feliz, acabou complicando-se. As acusações começaram a aparecer. Sobretudo depois que Budhia ganhou uma maratona, tornou-se figura pública e passou a aparecer em emissoras de televisão e em todos os jornais do mundo. O garoto maratonista, sim, é magnífico, mas não estarão abusando dele? O tal Biranchi Das não está escravizando o menino? Do sonho, Badhia saltou para o pesadelo.

O Pequeno Maratonista (Marathon Boy, 2010), documentário produzido pela HBO e dirigido por Gemma Atwal, pega carona na controvérsia, no escândalo de uma história real, com elementos típicos de Charles Dickens, em uma trama cheia de inveja, corrupção, oportunismo, avareza, intriga política e estrita aplicação das leis, além do preconceito entre castas. Gema Atwal levou cinco anos para registrar e montar este documentário entre Bollywood e os contos de fadas, cinco anos de adultos tentando beneficiar-se de um garoto e cinco anos de um garoto lutando para sair bem de um turbilhão. O documentário não fica do lado de ninguém, não mostra bons nem maus, mas aponta, como toda boa produção do gênero, como toda obra de arte, muitas perguntas.

O Pequeno Maratonista, neste domingo, 26 de fevereiro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Nascidas para sofrer, ou a comédia da solidão

por max 24. fevereiro 2012 09:28

 

Quão valente podemos ser diante da solidão? Há quem diga que suporta, há quem acredita que pode com ela. Talvez alguns tenham essa força. Pois, o filme Nacidas para Sufrir (2009), de Miguel Albaladejo, é uma comédia que gira em torno das angústias, das resistências e das lutas que nascem do possível enfrentamento com os espaços imensos da solidão. Flora (Petra Martinez) descobre, da noite para o dia, que viveu, durante toda a sua vida, a vida dos outros, cuidando deles, educando-os, preparando-os para o futuro. Ela vem sendo uma abnegada, ou uma resignada, que nas suas pequenas ilhas de existência, se sacrificou como faziam as muitas mulheres de antigamente – que fazem ainda hoje – pelos demais. O ideal cristão (a figura da jovem freira não é demais aqui) está ali de fundo, o amor ao próximo que fará feliz à humanidade inteira. Tem sido boa, tem se esforçado para ser boa e por fazer o bem, o que, às vezes, isso de ser bom converte-se em competência ou concorrência entre as mulheres. Serem boas e sofrer, sofrer e serem boas. Sempre e para sempre.

Contudo, quando já se encontra livre dos penosos cuidados, quando suas sobrinhas órfãs já cresceram e já se foram, Flora percebe que o que tem pela frente é o arcabouço da solidão. Com 72 anos, está perto de cair na via fácil (para os familiares) do geriátrico. A solução para não cair no esquecimento? Casar-se com Purita (Adriana Ozores), uma jovem submissa que sempre a acompanhou em seus trabalhos. Simples assim. Mesmo que pareça, em alguns momentos, que a desculpa não parece tão desculpa assim e que a senhora abnegada e boa, no fundo, está mais para uma tirana que encontra sua escrava.

Miguel Albaladejo consegue, dentro dos esquemas da comédia de costumes, trazer os assuntos contemporâneos e universais para o mundo rural. Porque a província, esse lugar no campo, não está exilado do mundo e está até bem próximo do que é próprio da cidade, também dos prédios, onde se vive talvez até com mais escândalo, resultado de discussões entre senhoras. A solidão, esse tema tão usado, o casamento entre parceiros do mesmo sexo, as uniões amorosas entre pessoas com diferenças enormes de idade, tudo isso está aqui, em um trabalho conjunto formado por mulheres, mulheres boas, caridosas, mas não sei se tão longe de um ataque de nervos (impossível não lembrar de Almodóvar), mas certamente da solidão, de um medo da solidão que se aproxima até meio divertido em sua maneira de apresentar-se. Porém, por trás disso tudo, entendemos que a comédia é uma porta para a crítica social, aprendizado que o cineasta obteve diretamente de seu mestre Luis Garcia Berlanga, com quem trabalhou em Todos a La Cárcel.

Humor negro e ternura em um filme que equilibra as duas coisas com o drama, para oferecer frescor, reflexão e gratos momentos. Nacidas para Sufrir, o melhor do cinema espanhol, neste sábado, 25 de fevereiro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Amarcord, ou Fellini a la Proust

por max 22. fevereiro 2012 09:05

 

O escritor cubano Guillermo Cabrera Infante disse que Fellini "foi preguiçoso por hobby, caricaturista de profissão e corretor de provas." E está certo, somente os preguiçosos sabem ser artistas (quando são gênios de verdade, porque há muitos preguiçosos que só acreditam ser artistas), e apenas os caricaturistas sabem que uma caricatura é o rosto da verdade com traços sangrentos, satíricos e que traz a verdade nua e crua. A caricatura é um rosto cortado desde sua essência. Fellini conhecia esse tema, sabia converter a acomodação, essa típica acomodação de um certo tipo de cinema italiano, em farsa, ironia, sátira e absurdo. Isso é Amarcord (1973), uma viagem ao passado com certo toque de acomodação irreal porque, não esqueça, é uma viagem às lembranças da infância de Fellini, que passa pelas matizes do diretor, portanto tem que ser irreal, satírica, bela e felliniana.

O filme é ambientado em uma cidade fictícia, Borgo que, na realidade, é reminiscência de Rímini na costa Adriátrica, cidade natal do diretor. Aa m'arcòrd é "eu me recordo" no dialeto próprio da região de Emilia-Romanha. Eu me recordo, sim, daqueles tempos, recordo de minha infância, de quão grandioso e belo era o mundo. Um preguiçoso, um vagabundo vive recordando, um caricaturista recorda essências, um artista faz cinema e obras-primas que nos falam da sociedade, que criticam os regimes tiranos (o fascismo dos anos 30 e de qualquer outra época), a igreja, a bobagem social, os vaidosos. Mas, como já se disse, toda essa visão mordaz do mundo, realista por assim dizer, não deixa de ser carregada de poesia, de imagens poderosas, como a da nevasca na cidade costeira ou do transatlântico chegando na madrugada. Por outro lado, o avô perdido na névoa, que pensa estar morto, ou o tio louco que sobe nas árvores para gritar bem alto que quer uma mulher, são momentos que, em todo caso, não precisam do surrealismo, mas sim da peneira da imaginação e do olhar poético e particular do grande diretor que foi Fellini. Entre os elementos tipicamente fellinianos, o sexo tem lugar no filme. Seios, pernas, cigarros, mulheres fogosas, prostituas ao ponto de explodir em suas grotescas delícias, tudo isso temos aqui. Está também presente, como marca do autor, a figura do alter ego que, desta vez, não é Marcello Mastroianni, mas sim o jovem Titta (Bruno Zanin), que vai narrando a história e seus pensamentos, assim como também fazem outros personagens, dando um paródico tom turístico a tudo o que vamos vendo. Em Amarcord encontramos tudo o que você pode adorar e desejar em Fellini, tudo aquilo que sempre fez de Fellini um autor; neste caso, o cineasta em sua infância, em sua adolescência, em seu passado mágico e ao mesmo tempo real. Guillermo Cabrera Infante disse que Amarcord é Proust à italiana, e disso não resta dúvida.

Amarcord foi premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Delicie-se nesta quinta-feira, 23 de fevereiro, com o último filme do ciclo Oscar sem Fronteiras. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

Goethe!, ou a luta entre a razão e a paixão

por max 17. fevereiro 2012 06:17

 

O pensamento da modernidade surge como reação à imposição do pensamento religioso único, do poderio da igreja católica e da superstição vindos da Idade Média. A modernidade advogava pela razão como bandeira indispensável para os novos tempos, nave veloz que levaria o homem a um futuro melhor, que o faria livre. A revolução industrial, o pensamento do Iluminismo, influenciado em grande parte por Descartes, a volta ao mundo clássico, sua reavaliação em busca da sabedoria, toda aquela firme crença na observação, o estudo e a utilização pura da mente em assuntos estritamente matemáticos e científicos, tomaram completamente a visão do mundo. Ou seja, todo pensamento superior, todo homem ou grupo de homens que tinham poder de influenciar a sociedade começaram a ver a realidade somente a partir dessa única perspectiva e nada mais. Como acontece com as novas ideias do homem, tudo fica exagerado, tudo torna-se extremamente demasiado, e tudo acaba sendo uma forma de radicalismo. Aquele que, no princípio, foi bom e além disso reagiu à tirania, termina virando a própria tirania e não admite outras perspectivas. No final do século XVIII surge, na Alemanha e no Reino Unido, um movimento que será uma reação ao pensamento da modernidade e que é conhecido como Romantismo. Assim, este movimento, tanto cultural quanto político, converte-se em crítica, em turbilhão ou redemoinho revolucionário, que alça o eu como entidade autonôma, acima dos estereótipos e das regras universas classicistas (da época clássica, como acontece no século XVIII). O romantismo coloca frente a frente o sentimento e a aventura da imaginação, e pensa no poeta como um artesão, um explorador de mundos diferentes e exóticos que estão além das fronteiras, ou no folclórico esquecido. O romântico busca a originalidade, o novo, o único, é um herói rebelde cheio de sensações. Frente à razão, o romântico opõe os sentimentos, o sentir profundo e arrebatado. Claro, o amor chamado romântico tem aqui um papel fundamental. O amor que é sentido profundamente, que é como uma tormenta sobre a campina, que prontamente torna-se impossível, que faz sofrer; esse é o amor que importa, o amor que vale a pena para o romântico.

O filme Goethe! (2010), do diretor alemão Philipp Stölz, representa esta luta entra a razão e o sentimento através da história juvenil de um dos autores mais importantes da Alemanha (para muitos, o mais importante), que influenciou, com sua personalidade e sua obra, a construção do romantismo alemão e europeu: Johann Wolfgang von Goethe, interpretado magistralmente por Alexander Fehling (Bastardos Inglórios), que incorpora o personagem com a paixão precoce que se requer para nadar nas águas da razão e do sentimento arrebatado, que é o que o cineasta busca representar.

Stölz, com habilidade e sutileza, propõe imagens, lugares, símbolos de ambos os mundos. Pelos terrenos da razão, campeiam os deveres, o trabalho mecânico, a instituição acadêmica, o compromisso amoroso surgido do dinheiro como forma de domínio, representando este domínio, este poder pela sociedade em geral e pelo personagem Albert Kestner (Moritz Bleibtreu, protagonista do inesquecível A Experiência (Das Experiment), antagonista do herói, chefe rico e dono do compromisso matrimonial de Lotte Buff (Miriam Stein), moça por quem o jovem Johann se apaixona. Os desvarios libertários do futuro grande poeta, sua repulsa ao trabalho, sua rebeldia inata e, claro, o amor desmedido e impossível são contrapartida para o enfrentamento do mundo da razão, que ele destacou. Essa luta, essa tensão entre ambos os pólos contribui para formamos uma ideia do homem que seria um símbolo da nação no futuro, um homem que, graças ao diretor, mostra-se mais humano, perdido em seus desejos e suas buscas, mais próximo.

Um filme de época muito bem recriado, atuações magníficas, paixões e poderes da razão que visam esmagar o sentimento. Leve e ao mesmo tempo dramático e profundo, Goethe! nos aproxima, de forma magistral, de um dos grandes poetas da Alemanha e do mundo, o que acaba transformando-se no grande trunfo do filme.

Goethe!, neste domingo, 19 de fevereiro. Reivente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Bróder, o futuro versus o destino

por max 17. fevereiro 2012 06:12

 

Já sabemos que nem todos os destinos são iguais. Três homens, três amigos que nascem no mesmo lugar, que crescem juntos, que aproveitam a infância juntos e, no caso dos personagens do filme Bróder (2010), dirigido por Jeferson De, amigos que sofrem com a mesma pobreza juntos, podem ter diferentes possibilidades de futuro, apesar de compartilhar das mesmas origens: neste caso, uma região pobre em São Paulo. Reunir-se já adultos para comemorar é uma maneira de comparar vidas. Isso é o que fazem Macu (Caio Blat), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Silvio Guindane) no dia do aniversário de Macu: eles se reúnem e se deparam com o presente em que vivem e as recordações do passado. Nessas lembranças, existe muito de beleza, de ternura, de poesia. Porém, a realidade está ali fora: Macu continua vivendo no mesmo lugar, sem maiores esperanças de sair dali, e Pibe saiu de lá e se casou com a ex-namorada de Macu, mas não tem maiores esperanças de progredir. Diferente deles, Jaiminho joga futebol na Espanha e tem um grande futuro pela frente. Ter futuro não é o mesmo que ter destino. Isso Macu sabe. Ele sabe que tem um destino obscuro, porque deve dinheiro, muito dinheiro a uma gangue de delinquentes. Claro, a obscuridade rodeia o destino dos pobres e quem tem futuro é, muitas vezes, a vítima das obscuridades do passado. Alguém com futuro, saído da miséria, pode também ter um mal destino. O passado é o que faz o destino e pode matar seu futuro. E isso é o que ocorre neste drama de Jeferson De. A relação com o passado, a intolerância ao presente, a miséria como destino contra os desejos de ter um futuro melhor, o horror de vidas mergulhadas na pobreza, tudo se junta para criar o conflito maior, o sequestro e a possibilidade de morte de Jaiminho por causa das dívidas de Macu. Mas, além das responsabilidades de Macu, entende-se que Jaiminho, em sua condição de homem bom, de jovem inocente, procurou, porém, um mal destino. Entende-se que, talvez ele tinha tido culpa, por continuar ali, simplesmente fiel às suas origens. Ou talvez tenha a culpa porque quis sobressair-se e triunfar, apesar de vir de onde veio. O futuro desafia o destino, e o destino, carregado de invejas e complexos, sempre se encarrega de manchar. Macu, como Jaiminho, não é nada mais do que uma vítima do caos no qual ele vive, do desespero e do mal que reinam no mundo. As perguntas então são: Quanto de bom sobrevive? Quanto de bom pode triunfar no mundo? Quanto há de destino no futuro?

Bróder, neste sábado, 18 de fevereiro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Valsa com Bashir, no ciclo Oscar sem Fronteiras

por max 15. fevereiro 2012 13:24

 

Em 1982, as Forças de Defesa de Israel invadiram o sul do Líbano. Seu objetivo: expulsar terroristas da OLP entrincheirados naquele país. Desde os anos 70, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) havia aliado-se a facções muçulmanas do Líbano, especificamente o movimento nacional libanês, com a finalidade de defender seus irmãos muçulmanos contra os cristãos daquele país. Quando Israel entra no Líbano em 1982, o faz, como já foi dito, com a desculpa de que guerrilheiros ou terroristas da OLP se escondiam por lá. A incursão começou em 22 de junho e, algumas semanas antes, em 3 de junho, o embaixador de Israel no Reino Unido, Shlomo Argov, havia sido alvo de um atentado por parte de três supostos autores, membros da OLP. O atentado contra Argov foi o que detonou a decisão de invadir e levar a situação ao inferno que toda a guerra acabou desatando.

Valsa com Bashir (Waltz with Bashir, 2008), de Ari Folman, é um filme que persegue a busca dessa memória, desse horror. Preso em um bloqueio mental, o diretor assume-se como personagem deste filme animado e mergulha, utilizando um documentário surrealista como formato, nas lembranças de vários soldados (os homens reais interpretam a si mesmos no filme) que participaram dessa guerra, e cujo ápice do horror ficou com as matanças nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, onde ocorreram estupros, torturas, mutilações e assassinatos, principalmente de crianças, mulheres e idosos, sob a desculpa de capturar os célebres terroristas palestinos. Na noite que deu início ao massacre (que durou 48 horas), os ativistas cristãos do Líbano entraram no campo enquanto o exército israelense vigiava o perímetro e iluminava os céus nos acampamentos.

Folman testemunha com este filme que a guerra não é um lugar romântico para heroísmos, nem para forjar grandes homens. A guerra deixa feridas e vazios nas almas e é um lugar surrealista, um verdadeiro pesadelo. Foi com base nisso que o cineasta decidiu adotar um estilo de animação digital, no qual predomina o escuro e o melancólico. Os desenhos, surpreendentemente realistas, não foram refeitos, ou seja, não se redesenhou "em cima" de um ator ou de uma pessoa previamente filmada, os traços todos foram feitos a mão, a maioria por David Polonsky, em muitas ocasiões, propositadamente com a mão menos habilidosa (no caso de Polonsky, a esquerda) para dar ao filme esse estilo nada glamoroso, que busca fundir-se com a temática. Para algumas cenas, porém, utilizou-se a animação 3D, sobretudo para as paisagens. Assim, Folman mergulha em sua memória e na de outros, se aprofunda no passado e no universo que, segundo ele, somente pode ser visto como um mundo de sonhos, de pesadelos, onde sua casa, tranquila e serena, está a apenas alguns poucos quilômetros do campo de batalha. O diretor não somente demonstra o surrealismo terrível da guerra, mas também a esfera do absurdo, onde o ego, a masculinidade mal entendida, os interesses de uns poucos e os falsos aspectos romanceados jazem no fundo das razões mais sombrias.

Valsa com Bashir foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009. Veja nesta quinta-feira, 16 de fevereiro, dentro do ciclo de Oscar sem Fronteiras. Reivente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Especial sobre homens beta

por max 13. fevereiro 2012 07:17

 

Os homens beta já chegaram, e chegaram dançando o tcha-tcha-tcha, ou talvez não, porque os melhores homens beta não dançam, ou somente dançam música romântica. Os homens beta chegaram, sim, chegaram para destronar os metrossexuais, tão suspeitos... Os homens beta mais que estética, que o físico, são sensibilidade. Bem parecidos, ou não, mas não são absolutamente galãs, não são totalmente bem vestidos. Os homens beta, dizem, não temem seu lado feminino, mas são homens, atenção, homens que encantam as mulheres. São inteligentes e não lhes interessa ser líder, destacar-se como machos alfa. Estão bem onde e como estão, mas ainda assim são bem sucedidos, porque amam o que fazem. Deixam, sem qualquer problema, que uma grande mulher fique à frente deles. Ou seja, atrás de toda grande mulher, agora há um grande homem beta, um bom pai, um excelente amante, alguém tranquilo, sem bebedeiras e sem amores extremos pelo esporte, alguém espiritual, sem fanatismos religiosos.

Já chega de tanto homem que grita, brigão, que vai à guerra e à caça, já chega de tanto viking vendo esportes, já chega também daquele que quer ser mais lindo que elas, que fica até meio suspeito com tanto cuidado com a pele e a roupa; a mulher de hoje voltou seu olhar para o homem beta. Ela é trabalhadora, executiva, ela tem suas metas e liberdades claras, e ninguém vai sair por aí a pisoteando, muito menos competindo com ela no campo feminino. Desta forma, o homem beta está muito próximo do homem perfeito, o andrógino verdadeiro, o homem dos novos tempos, o excelente companheiro para a mulher de hoje. Que o homem beta seja bem-vindo, se é verdade que ele exista. E se não existe na realidade, pelo menos está no cinema, e o Max mostra isso nesta segunda-feira, em um especial de três filmes onde você poderá identificar se o homem que tem ao seu lado... é um homem beta.

 

 

Começamos com Amor sem Idade (Love Comes Lately, 2007). Esta comédia dramática do alemão Jan Schütte é baseada em vários contos de Isaac Bashevis Singer, premiado com o Nobel de literatura. Max Kohn (Otto Tausig), um escritor solitário, que gosta da solidão, que sabe que a solidão não é um tormento, um homem sensível, um herói da palavra, já de 80 anos, mas que vive apaixonado pelo amor, pela ideia do amor, e tem forças para amar ou pelo menos sonhar, para imaginar que ama. Um filme delicado, sóbrio, encantador, que apresenta este homem beta, já com certa idade, porém, segundo as groupies que o cercam, encantador.

 

Seguimos com Os Homens que Encaravam as Cabras (The Men Who Stare at Goats, 2009). Ewan McGregor, que já por si só tem pinta de homem beta, é um jornalista talentoso, sensível, que ama sua profissão e sua esposa, mas que foi deixado por ela. Bob (esse é o nome do personagem de McGregor) sente que sua (ex) mulher não o respeita, que ela acha que ele não é um homem e, assim sendo, ele vai para o Iraque (estamos em 2009), em plena guerra, para demonstrar para ela que sim, ele é um homem que honra suas calças. Lá conhecerá Lyn Cassady (George Clooney), que revelará que fez parte de um batalhão especial de Guerreiros Jedi, espiões psíquicos do chamado Exército da Nova Terra, uma unidade especial e, claro, secreta, das Forças Armadas norte-americanas. Trata-se de uma comédia inteligente, satírica, desconcertante, muito ao estilo dos irmãos Coen, Michel Gondry, Spike Jonze ou Charlie Kauffman.

 

 

E falando de Spike Jonze e Charlie Kauffman, encerramos com Adaptação (Adaptation, 2002), a história de um roteirista, Charlie Kauffman, interpretado por Nicolas Cage, que encontra-se em um momento crítico em sua carreira criativa. Confuso, mesmo no meio de um bloqueio criativo, ele precisa escrever um roteiro sobre um livro de não ficção de Susan Orlean, personagem interpretado por Meryl Streep. O livro trata sobre orquídeas e sobre um ladrão de orquídeas. E assim Cage apresenta-se como um possível homem beta, prestigiado, mas sensível e, nesse momento da história, bastante perdido em sua própria arte; inclusive, para mim, o verdadeiro homem beta é este ladrão de orquídeas do livro de Susan Orlean, um tal John Laroche, interpretado por Chris Cooper. Laroche, rústico, sem dentes, sujo, acaba sendo um homem de bons sentimentos, interessante, quase um poeta, a quem Susan prende-se e não digo mais nada. Chris Cooper recebeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por este filme. Adaptação, de Spike Jonze, com roteiro de Charlie Kauffman, é uma das produções raras, particulares, inteligentes, que devem fazer parte da história dos filmes que você sempre lembrará e admirará. Com homens beta incluídos.

Especial Homens Beta, nesta segunda-feira, 13 de fevereiro

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O Estranho Caso de Angélica, ou a fotografia, o amor, a arte e a morte

por max 10. fevereiro 2012 11:51

 

Uma noiva cadáver, uma garota delicada, doente por causa de algum mal do século XIX, assim como "Maria", do escritor colombiano Jorge Isaacs. Apenas se casa, morre, e sua família rica decide então contratar um fotógrafo que tire suas fotos. Fotos da morta. Isto, vale dizer, não era estranho no século XIX. A fotografia começa a se popularizar, mas não tanto para se ter uma câmera em cada casa. Naquela época, o processo de fotografar era lento, elaborado e precisava da intervenção de um profissional. Desta forma, pode-se imaginar: um ente querido morre (a maioria dessas fotos são de filhos pequenos) e, na mesma hora, a família percebe que não tem nenhuma imagem para lembrar dessa pessoa, uma imagem que não apague completamente a presença, nesse mundo, do ente querido que se foi. A imagem é importante, e a lembrança é passageira. Como um paliativo para a ausência da voz, do corpo em movimento e do brilho dos olhos - e depois, a ausência absoluta -, a família contrata um fotógrafo para que ele tire fotos do falecido. Vestem o morto, o acomodam, o colocam em um cenário. A morte requer uma cena para que pareça vida. A realidade da morte se simula com uma representação da vida. É o mesmo que dizer, usando como referência o filósofo Ludwig Wittgenstein, o objetivo é considerar a morte como um fato. A vida é uma representação de fatos.

No filme O Estranho Caso de Angélica (2010), o veterano português Manoel de Oliveira apresenta um jovem e excêntrico fotógrafo de origem judaica, que visita uma casa de católicos ricos em um distante povoado, precisamente para exercer esse ofício. Ao chegar, encontra uma moça morta de extrema beleza. Enquanto ele tira as fotos, ela abre os olhos em algum momento - ou parece que abre – e sorri para ele, apaixonada. Edgar Allan Poe aparece aqui como uma referência obrigatória. "Ligeia" e "Berenice" são duas histórias que falam sobre esse "amor além-morte", que deixa atormentado quem fica só nesse universo, ou pelo menos acreditamos que tenha ficado só. No caso de Poe, aquela que está morta, na verdade, não está completamente morta, ou aquela que está morta (Ligeia) transforma-se na viva (Rowena) para morrer novamente na mulher que está viva. Rowena, loira e de olhos azuis, nos lembra a bela Angélica. Será que as loiras delicadas e doentes sempre estarão mais doentes e serão mais dignas de pena do que as morenas? Talvez essa loira delicada e etérea lembre a iconografia já bastante conhecida do anjo terreno, e talvez seja mais doloroso que morra um ser que nos lembre um anjo (Angélica) do que uma simples morena. Ligeia, que era morena, volta à vida e se transforma em Rowena, a delicada loira. Ao final, Ligeia acaba sendo uma criatura infernal. Assim, a loira tem as honras da pureza, da inocência, da vida suprema cortada antes do tempo, a mesma coisa que acontece com Angélica no filme. O cineasta português, em todo o caso, não segue uma linha tão obscura como a de Poe. Ele apresenta um fotógrafo em meio à loucura, a qual pressentimos, mas na forma de poesia mais luminosa. Ali teremos o fotógrafo judeu apaixonado por uma morta que era católica. Como se o cineasta nos dissesse que, sem importar a religião dos apaixonados, o amor vai além da morte ou, talvez, a loucura vá além da morte, a loucura desconhece religiões, como o amor.

Para Susan Sontag em Sobre a Fotografia, umas das características principais da fotografia é a beleza, a representação do mundo. O morto das fotos do século XIX, que é mostrado "vivo" para seus parentes, está representado, faz parte de um cenário; em certas ocasiões, é mostrado como se estivesse dormindo, mas mesmo assim, está vivo. É como se a arte tivesse a virtude de devolver à vida quem está morto, como se, paradoxalmente, a arte agredisse a morte, como se a arte fosse agressiva com a morte na tentativa de arrancar dela uma forma de vida. A fotografia do memento mori ("lembre-se da morte") imortaliza a morte, o corpo que desaparecerá, tira da morte uma de suas principais funções: o esquecimento. E esquecimento é, precisamente, o que a arte tenta evitar, é o que o amor tenta evitar. O amor pretende ser eterno, assim como a arte. Se pensamos em Platão, temos a ideia completa: a alma do homem, transformada em corpo na terra, lembra, suspeita, intui em alguma parte distante e íntima daquele homem, o mundo que vem, o mundo das ideias, onde certa vez, a alma foi perfeita. Assim, plantada nessa sombra das ideias que é a matéria, a alma busca alcançar este outro mundo através do que Platão chama de amor. O amor pelas coisas belas nos aproxima do lugar de origem da alma. Seguindo com os paradoxos, Susan Sontag diz que toda fotografia é memento mori. "Fotografar é participar da mortalidade, vulnerabilidade, mutabilidade de outra pessoa ou coisa." E também diz: "A fotografia é uma espécie de ênfase, uma cópula heróica com o mundo material." Mas Manoel de Oliveira parece perguntar-se: "O que acontece quando a coisa foi vulnerada, o que acontece quando a coisa fotografada já está morta? O que acontece, precisamente, quando o que foi fotografado já é o memento mori? Poderia então responder a partir do ponto de vista metafísico. Não é o material o que registramos, é o imaterial, vai além, a beleza que esconde o mistério da morte. A arte e o amor redimem a beleza, desenterram o esquecido, dão vida. Aqui talvez esteja Angélica, esse ser angelical que, na terra, parecia ser uma "ideia" platônica que desceu - um anjo para os judeus e cristãos -, que volta à vida através da arte da fotografia e através, é claro, do amor. Isaac, o fotógrafo, ao contrário do que diz Sontag, não está livre de responsabilidade ao fotografar a morte. Ele já tinha agredido a morte e deve pagar. Lembremos do suicídio, por exemplo, da fotógrafa judia Diane Arbus, que, no final, não suportou o horror das pessoas particulares que fotografava. Isaac, ao fotografar a beleza morta, ao reviver a beleza morta, apaixona-se e a morte, por sua vez, apaixona-se por ele. A invasão dos homens nesse outro mundo, onde a alma conhece imortalidades, é um atrevimento. "Juntar-se" ao outro lado, ao que está além (além do além) do anjo morto, implica na desestabilização, na loucura. Susan Sontag diz que "a fotografia é o inventário da mortalidade." No caso do filme de Manoel de Oliveira parece ser o contrário: a fotografia vira um inventário do imortal, do amor, da arte e da beleza.

O Estranho Caso de Angélica, neste domingo, 12 de fevereiro.

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Fome de Viver, mulher, estética e erotismo nas histórias de vampiros

por max 9. fevereiro 2012 11:02

 

A mulher vampira tem raízes profundas, talvez muito mais profundas que homens vampiros. Se lemos a introdução do livro Vampiros, do conde Jacobo Siruela, vemos que, desde a antiguidade, há referências a seres femininos e demoníacos que se alimentavam de sangue. Siruela cita Lilith, demônio da cabala hebraica, que foi a primeira mulher criada por Deus, do próprio barro, como Adão, e antes que Eva. Mas Lilith, ao descobrir que foi criada com a mesma matéria que Adão, reclamou seus direitos. Negou-se a servir ao homem, negou-se a estar debaixo dele durante o coito, invocou o nome de Deus, foi expulsa do Paraíso, e assim foi condenada a viver para sempre como um demônio. Lilith, apesar de condenada, conserva uma bela figura feminina, engana os homens, rouba o sêmen deles para fazer novos demônios femininos e também se alimenta do sangue de crianças. O gênio da mitologia árabe djinn, gul, ou algola, também se alimenta dos pequenos. Entre os gregos, dizia-se que a empusa, uma derivação da divindade Hécate, tomava forma de mulher atraente e enganava os homens. Filóstrato, em Vida de Apolônio de Tiana, conta a história de Menipo, jovem enganado por uma empusa. Menipo, até a noite de seu casamento, acreditava amar uma maravilhosa estrangeira. Se não fosse pela intervenção de Apolônio, Menipo teria deitado no leito da empusa, e ela teria sugado seu sangue. Na antiguidade romana, havia a lâmia, estreitamente relacionada com a empusa. Vampiras, às vezes horrendas, às vezes belas, fascinam da mesma forma que o prazer fascina, que o sexo fascina, que a morte fascina. Diferente do homem vampiro, que no início é abertamente animal e que depois, com os escritores John William Polidori e Bram Stoker, vai incorporando certa elegância, nobreza e atrativo humano, o vampiro feminino, desde o começo, enfeitiça com esses poderes que a destacam como sedutora. Assim vemos, por exemplo, no conto de Johann Ludwig Tieck: "Não Desperteis aos Mortos", de 1800, no qual Walter ressuscita Brunhilda, sua esposa morta, uma belíssima mulher que é descrita da seguinte maneira:

"Seus cabelos escuros como o rosto negro da noite, derramados sobre os ombros, realçavam, sobremaneira, o esplendor de sua figura esbelta e a rica cor de suas bochechas, cujos matizes eram como o céu vivo e brilhante ao poente. Seus olhos não se pareciam com essas orbes de pálido brilho que adornam a abóbada da noite e cuja distância imensurável nos enche a alma de profundos pensamentos de eternidade, mas sim aos sóbrios raios que alegram este mundo sob a lua e que iluminam, inflamam de alegria e de amor os filhos da terra."

Em 1872, Joseph Sheridan Le Fanu publica "Carmilla", relato mais conhecido que o de Tieck, onde também vemos a figura do vampiro representada por uma bela mulher, fogosa e terna ao mesmo tempo. Carmilla é descrita, por vezes, como uma moça esbelta. Seu rosto é gracioso, "até mesmo belo". Com sua beleza, Carmilla seduz Laura, a protagonista do relato. O tema lésbico aparece aqui marcado com força inusitada. Assim conta Laura:

"Às vezes, depois de um período de indiferença, minha saudosa e bela companheira pegava minha mão, segurava e a apertava carinhosamente de vez em quando, e finalmente ficava levemente ruborizada, olhando-me com olhos lânguidos e ardentes, e tão ofegante que seu vestido subia e baixava por causa de sua respiração tumultuada. Era como a paixão de um namorado, me perturbava, era algo odioso e, não obstante, também irresistível. Por isso ela me atraía, apenas com seu olhar, e seus cálidos lábios percorriam minhas bochechas, enchendo-me de beijos, enquanto sussurrava, quase soluçando: - És minha, serás minha, tu e eu teremos que ser uma só pessoa, e para sempre."

No Drácula, de Bram Stoker, Jonathan Harker vivencia uma orgia de vampiras. Na cama, em frente a ele, à luz da lua cheia, estavam três mulheres jovens. "Duas delas eram morenas, de nariz comprido e aquilino, como o do conde, olhos negros e penetrantes que pareciam quase vermelhos por contraste com a pálida lua amarela. A outra era bela, muito bela, com uma espessa cabeleira ondulada, de fios dourados e olhos como pálidas safiras."Elas se mantêm ali, na frente dele, cochichando e, antes de se lançarem definitivamente sobre o pescoço dele, soltam risos agudos, musicais. "Era como a doçura intolerável e estremecedora de taças de cristal nas mãos hábeis de quem brinca com elas". Doce e intolerável, duas palavras que se unem para expressar o que é a vampira: beleza e espanto, prazer e morte.

Tony Scott, irmão de Ridley Scott, realizou seu primeiro filme comercial, sua primeira peça profissional para o cinema em 1983. Trata-se de um filme de vampiros, Fome de Viver, uma peça muito estilizada, com estilo muito "publicitário" (Scott vinha de trabalhos anteriores em comerciais para televisão), que gira em torno de uma vampira na Nova York dos anos 80. Esta vampira, Miriam Blaylokc, interpretada por Catherine Deneuve, tem mais de 2 mil anos, vive em uma luxuosa mansão em Manhattan e tem um namorado chamado John, a quem converteu em vampiro no século XVIII, vivido por David Bowie. Miriam, claro, é bela, sedutora, elegante, digna herdeira daquelas primeiras vampiras que dominavam a todos com seu poder além-morte. John, por sua vez, começa a envelhecer. Os poderes de Miriam não são absolutos. Seus amantes não podem morrer, ela os transforma em vampiros, em amantes que duram séculos, mas há um problema: a beleza deles não é eterna; em certo momento começam a envelhecer aceleradamente, sem poder morrer, como já disse. Cabe destacar que este processo de envelhecimento dos vampiros é desenvolvido por Anne Rice em Entrevista com o Vampiro, livro publicado em 1976. Ao final da obra, vemos o vampiro Lestat envelhecido, preso em casa, incapaz de compreender os novos tempos, doente, perdido, mas imortal. De fato, diz-se que originalmente Tony Scott queria fazer a versão cinematográfica do livro de Rice. Como se vê, não pôde; ao contrário de Neil Jordan que, em 1994, pode estrear a produção com Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas e Kirsten Dunst nos papéis principais.

Scott, sem acovardar-se pelo impedimento, concebeu Fome de Viver, um trabalho que, sem dúvida, faz um tributo a Anne Rice e, claro, a toda a tradição vampiresca. Mas, de Rice, ele pega emprestado especificamente o tema do envelhecimento, apesar da variante particular. Em Lestat, como já disse, este é um tema mais metafísico, por causa da incapacidade do vampiro para entender os tempos em que vive, enquanto que para John, de Fome de Viver, trata-se de algo parecido com uma injeção cujo efeito vai passando com o tempo. Assim, na busca de uma possível solução para este envelhecimento, os vampiros encontram a doutora Sarah Roberts, interpretada por Susan Sarandon. No processo, Miriam começa a sentir-se atraída por Sarah, e tal atração se mostra em um ritual de seduções e artimanhas que terminam em uma das cenas lésbicas mais famosas do cinema americano (ou talvez seja bom dizer, de vampiras) entre Susan Sarandon e Catherine Deneuve.

Fome de Viver, como se vê, tem um peso importante dentro da genealogia do mito vampiresco no cinema. Por um lado, tem toda aquela sofisticação, elegância e beleza da imagem que o vampiro acumulou durante anos e deixa ali impresso, em plenos anos 80, numa época decadente, sofisticada e niilista. Por outro lado, essa estética cheia de preciosismo se une, com obviedade quase que genial, ao ramo feminino do vampirismo, representado por Catherine Deneuve, bela vampira, fina, fascinante e ao mesmo tempo impiedosa. E, finalmente, o erotismo da tradição explode aqui na figura daquelas duas mulheres magníficas amando-se na tela. Sem dúvida, Tony Scott fez um excelente primeiro trabalho. Ele, que depois fez, entre outros, Top Gun - Ases Indomáveis (Top Gun, 1986), Um Tira da Pesada II (Beverly Hills Cop II, 1987) e Dias de Trovão (Days of Thunder, 1990). A ele também devemos agradecer por ter feito Amor à Queima-roupa (True Romance, 1993), com roteiro de Tarantino. O certo é que Fome de Viver é um desses filmes raros que, até mesmo em um primeiro momento, passam despercebidos, mas que, com o passar dos anos, vão se convertendo em cult.

Fome de Viver, de Tony Scott, nesta sexta-feira, 10 de fevereiro.

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