Termina o ciclo de cinema de Bollywood com Motos Explosivas

por max 30. janeiro 2012 12:19

 

De O Selvagem (The Wild One, 1953) para cá, as motos têm sido um tema cinematográfico recorrente. Pode-se dizer que talvez a geração beat tivesse a ver com isso, com essa viagem pelas estradas da América. Possivelmente a imagem de Marlon Brando pese mais do que a de qualquer intelectual. Nessa linha também está Sem Destino (Easy Rider, 1969), entre outros. Claro que temos também Fúria em Duas Rodas (Torque, 2004), filme no qual sobram motos, e a série Taxi (1998, 2000, 2003, 2007), produzida por Luc Besson, repleta de táxis, claro, e que, aparentemente, foi a verdadeira inspiração do diretor Sanjay Gadhvi, filho de Yash Chopra, o Midas de Bollywood, para realizar Motos Explosivas (Doohm, 2004), um filme de ação, cheio de motos, tiros, perseguições e roubos. Filho de peixe, peixinho é e, com este filme, Sanjay Gadhvi mostra exatamente isso, pois Motos Explosivas foi, em seu lançamento, uma das produções mais bem sucedidas nas bilheterias indianas. Claro, não há somente motos e ação, o roteiro também traz danças e canções na batida da música eletrônica.

Motos Explosivas, encerrando com chave de ouro o ciclo de cinema de Bollywood, que o Max nos trouxe este mês. Assista na segunda-feira, 30 de janeiro. Reinvente, imagine de novo. Descubra o Max.

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O juramento, vida e documentário depois de 11 de setembro

por max 27. janeiro 2012 09:18

 

A filmagem de um documentário pode nos fazer acreditar que o destino existe, ou pode nos levar a pensar que a vida é realmente um caos, sem sentido. Um documentário depende dos vai-e-vens, do fluxo, daquilo que vai aparecendo no caminho. Difícil é planejar um documentário. Mas se, ao final, todas as peças se encaixam, se, ao final, você fica com a sensação de que tudo estava esperando por você, de um jeito ou de outro, então haverá horas e horas de material fantástico que deverá ser condensado sob o seu olhar e de seu montador.

A diretora Paula Poitras sabe muito bem que o mundo lá fora está cheio de conexões inesperadas, de surpresas, de longos caminhos, de momentos maravilhosos, de cortinas, de lenços, de véus, de mentiras e de verdades tão estreitamente unidos que não resta nada além de pensar que a fragmentação não existe e que, por trás dos fatos, há algo que junta tudo, algo que une tudo, algo esférico talvez, mas nunca simples. Desde 2006, Laura Poitras prepara uma trilogia de documentários que gira em torno do tema do terrorismo e da catástrofe de 11 de setembro, buscando abarcar a totalidade desse assunto, como se, através de seus documentários, buscasse mostrar a unidade que existe em cada parte, em cada coisa da existência. Começou com My Country, My Country, documentário que foca um médico iraquiano aspirante a político com anseios democráticos em pleno tempo da invasão americana, para seguir com O Juramento (The Oath, 2010), um filme que levou a cineasta, durante uns quatro anos, a ir e vir dos Estados Unidos para o Iêmen. Em princípio, e sempre sob uma perspectiva micro-macro, ela queria mostrar um regresso, a volta ao lar de algum prisioneiro islâmico de Guantânamo, de alguém relacionado com a Al Quaeda que fosse declarado inocente e que voltaria para sua pátria. Para isso, Laura Poitras conseguiu Salim Hamdan, que se encontrava na prisão e em pleno processo. Poitras, porém, viajou ao Iêmen na busca de entrevistas com a família dele, e nessa busca chegou ao concunhado de Salim, um homem fascinante chamado Abu Jandal. Salim, cabe aqui dizer, havia sido motorista de Osama Bin Laden, e Abu, um dos seus guarda-costas. Ambos casaram-se com irmãs por determinação do mesmo Osama, mas, ao final, Salim, o simples motorista, foi quem acabou capturado e enviado para Guantânamo, enquanto isso Abu, o mais ativo, o mais radical, ficou livre. Abu é um personagem extremamente fascinante, e o documentário absorve esse poder. Salim passa a ser uma voz, uma presença invisível, e Abu, em contrapartida, ocupa todo esse espaço. É um homem carismático, gente como a gente, que fala conosco e, além disso, está convencido que o ocidente é o inimigo. Ele se expressa abertamente, mas não apóia o terrorismo. Até parece que tem uma alma transparente. Cuida de seu filho, é bom com ele, trabalha duro. Trata-se de um homem comum e normal que vive seu tempo e sua cultura. Inclusive, depois da volta de Salim, somos informados de suas falhas, de seus medos, daquilo que supostamente fez em seu passado. Ali então entendemos, ou acreditamos entender, que a vida, às vezes, é maior do que qualquer radicalismo, que qualquer juramento de morte. Esse amor pela vida, que vemos ali, é como fazer um documentário. O documentário afronta isso com uma convicção, com um pacote de ideias pré-concebidas, mas então a realidade nos enfrenta e nos diz que não, que a coisa não é bem assim. O mesmo acontece com a vida e as convicções. A vida, o instinto da vida, é maior que qualquer convicção, que qualquer ideia. A história que Poitras conta não é fácil, porque bem sabemos que as crenças que estão por trás desses homens tão humanos e tão próximos, são as mesmas que levaram à destruição das torres gêmeas e a tantas mortes. Entender não é o mesmo que justificar, ver o lado bom de alguém não é abrir-se, amar e aplaudir e a obscuridade desse alguém. Quem são essas pessoas que estiveram a um passo de participar desse grupo de assassinos suicidas? O que pensam, o que pensavam? O documentário gira em torno disso e, como um filme de suspense, vai girando em torno do mistério. O mistério do ser humano, o mistério da vida.

O Juramento, neste domingo, 29 de janeiro, no Max.

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Geral

Um Homem que Grita, ou as convicções do coração

por max 24. janeiro 2012 11:41

 

Em algum lugar, li um comentário sobre Um Homem que Grita (Un Homme qui crie, 2010), onde destaca-se que é uma produção do Chade, África, o que acaba sendo muito especial, mas, principalmente, que é um filme africano sobre a África, uma produção que não se acomoda nos lugares comuns, no folclórico, em tudo aquilo que, realmente, é a África, mas que, ao mesmo tempo, não representa tudo o que a África significa, não é tudo o que a África pode nos contar sobre o próprio continente. Seu diretor, Mahamat-Saleh Haroun (Bye Bye Africa, Our Father, Temporada de Seca/Daratt), sem dúvida, nos ambienta em uma sociedade e seus conflitos (no início da guerra civil), mas seu centro está na relação entre pai e filho, na vida íntima, em suas tensões, enfrentamentos. O cineasta aposta na complexidade do ser humano, ali onde amamos e, ao mesmo tempo, odiamos, onde sofremos e, ao mesmo tempo, nos alegramos. Um homem que se vê obrigado a deixar o trabalho de toda sua vida, um homem já de 55 anos e sem maiores recursos, não pode sentir-se feliz por seu próprio filho ter lhe tirado esse trabalho. Mas o que fazer quando a vida do rapaz talvez dependa da decadência do próprio pai? A freira Joana Inês da Cruz disse que o amor é um labirinto; também poderia ser dito que o amor é sacrifício. Assim, Mahamat-Saleh Haroun escapa das armadilhas que são lugar comum e "politicamente corretas", buscando aprofundar-se. Lembro, aliás, de uma resposta de Leonard Cohen em uma recente entrevista a respeito da estreia de uma nova produção. Cohen fala das ideias, diz que o que ele deseja quando escreve uma canção é desfazer-se das ideias, que não lhe atraem as canções com ideias. "Tendem a ser propaganda. Sempre estão do lado certinho das coisas: a ecologia ou vegetarianismo ou contra a guerra. Todas estas são ideias maravilhosas, mas gosto de trabalhar as canções que vão além dos slogans, com tudo o que de maravilhoso há nelas e com o que de importante elas promovam, e acabo encontrando-as nas convicções mais profundas no coração. Nunca escrevi uma canção didática. Somente minha experiência, tudo o que tenho que colocar em minhas canções é minha experiência."

Um Homem que Grita, um filme honesto, simples, mas profundo, sensível mas não fresco demais, que ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes. Estreia, quarta-feira, 25 de janeiro, no Max.

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Veer e Zaara, amor e sacrifício, segundo Bollywood

por max 20. janeiro 2012 13:14

 

A ideia do sacrifício é fundamental para muitas religiões. Desde o princípio dos tempos, o homem sente a necessidade de fazer algo sagrado (sacro facere), que o aproxime dos deuses. Com a necessidade dessa aproximação vem também o distanciamento deste mundo, dos males deste mundo e o desejo de permanecer – mesmo que seja por alguns instantes – em um tempo alheio ao que se vive, tão saturado de caos e loucura. Quem se sacrifica obtém um instante de eternidade. Quem se sacrifica, além disso, se purifica, se livra do pecado. Por quê? Porque quem chega à mesma altura de deus, somente pode fazê-lo livrando-se de toda sujeira. Essa purificação, essa salvação, costuma ser não somente individual, mas também estender-se ao outro, ou a outros, ou seja, com a purificação de quem se sacrifica ou sacrifica, por extensão, se purificam outros. Isso faziam os sacerdotes, aqueles que conheciam as maneiras exclusivas de chegar aos deuses. Eles se sacrificavam pelos demais. Com o tempo, o sacrifício começa a ser interior, espiritual e requer cada vez menos um mediador burocrático. Então, alguém se sacrifica pelos demais. Jesus Cristo se sacrificou pela humanidade, nada mais e nada menos. Essa ideia do sacrifício a partir de uma pessoa para outras pessoas permanece no vocábulo da palavra, ou seja, passou ao mundo secular, profano, ali, onde se instauram outras formas de religiosidade, como, por exemplo, o amor. No mundo separado do místico, dos deuses, ou do Deus, permanece a noção de sacrifício por amor à outra pessoa. Grandes homens da humanidade renunciaram às coisas materiais da vida, aos prazeres da vida, e à própria vida por amor a todos os homens. No nível individual, no nível profano, a repetição do ato persiste: um homem pode sacrificar-se por amor, pelo amor, no caso menos mítico e místico – disse alguém -, pelo amor a uma mulher. Veer e Zaara (Veer-zaara, 2004), dirigido por Yash Chopra, o diretor do cinema romântico por excelência na Índia, conta uma história de amor que, como muitos filmes de Bollywood, está mergulhado nas dificuldades das diferenças de classes, dos casamentos arranjados previamente e dos interesses pelo dinheiro. O filme abre com Veer (contamos novamente com Shah Rukh Khan) na prisão. Veer é um homem aprisionado em si mesmo, que não fala com ninguém, a não ser com Saamiya (Rani Mukerji), a jovem advogada, compreensiva e humana, que veio para ajudar a encaminhar o julgamento. Neste obscuro presente, Veer viajará 20 anos no passado e contará as causas de sua prisão através dos detalhes da sociedade a qual pertence, das castas, das raças, de dois países que inclusive, certa vez, formavam um só: Índia e Paquistão. Veer se apaixona perdidamente por Zaara (Preity Zynta), mas em seu caminho, o amor não conhece, não tem espaço para mais nada além de impossibilidades, e finalmente, sacrifício. Ao sacrificar-se, Veer converte-se (como não?) em uma espécie de mártir (na confusão das fronteiras, ele acredita estar inclusive morto por causa do incêndio do ônibus no qual viajava), a quem a prisão já não prende mais, pois ele fica com a sensação de ter superado até este mundo. Veer não cometeu nenhum crime, a não ser o de ter ousado sonhar com um amor impossível. Mas ele não somente não cometeu nenhuma falta... ele foi além e se sacrificou para salvar a honra de sua amada.

Amor e sacrifício, nesta segunda-feira, 23 de janeiro, em Veer e Zaara, dentro do ciclo do cinema de Bollywood, no Max.

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Corra Lola Corra, ou os universos paralelos múltiplos

por max 19. janeiro 2012 13:12

 

Universo 1

O filme Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998), dirigido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, pode ser considerado um interessante exercício de estilo, cheio de velocidade e propostas de argumentos que lembram os famosos Exercícios de Estilo, de Raymond Queneau, um livro constituído de cem textos sobre um mesmo episódio insignificante (um rápido instante de uma viagem de ônibus onde um jovem se queixa e algo e na sequência é visto em uma praça), contado sempre de maneira diferente, com diferentes estilos... em universos distintos?

 

Universo 2

O filme Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998), dirigido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, pode ser considerado uma exploração da teoria dos universos múltiplos. Explico melhor: segundo a física quântica, quando uma partícula não é observada, seus movimentos podem ser antecipados, ou profetizados, com exatidão matemática. Ao contrário, quando é observada, a partícula se comporta de maneira irregular. Existe, para explicar tal irregularidade, a teoria dos universos múltiplos (ou paralelos). Segundo esta teoria, diante de uma possibilidade física, o universo se divide, explorando a realização de todas essas possibilidades, ou seja, é o mesmo que dizer que o universo cria outros universos paralelos. É o mesmo que dizer que se um homem escapa de ser atropelado em um universo, em outro esse mesmo homem será atropelado; em outro, receberá um arranhão; em outro, insultará o motorista do carro; e em outro, não será atropelado, mas morrerá por causa de infarto em razão do susto. Certeza é que, segundo esta teoria matematicamente comprovada por cientistas de Oxford, existem outros universos criados a partir de possibilidades de acontecimentos, o que explicaria a razão das partículas se moverem de forma irregular, isso neste e em todos os outros universos. Corra Lola Corra é uma magnífica exploração dessa teoria e suas possibilidades. Uma ação que, no decorrer do filme (e da história), dura 20 minutos, se expande e rende outras possibilidades do mesmo momento, até formar o longa-metragem inteiro.

 

Universo 3

O filme Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998), dirigido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, inspirou em mim a seguinte frase para o amor nos universos paralelos: "o beijo que não me destes hoje porque dissestes que não me amavas, sim aconteceu em outro universo, onde sim me beijastes, onde sim me amastes."

 

Universo 4

O filme Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998), dirigido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, levou alguém a escrever esta frase sobre sua protagonista, Franka Potente. Esse alguém disse: "Francamente, potente Franka".

 

Universo 5

O filme Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998), dirigido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, também inspirou este mini-conto: "Em outro universo, Lola não faz nada, fuma um cigarro e assiste, em um cinema, o filme que se chama Corra Franka Corra."

 

Universo Max

O filme Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998), dirigido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, nesta sexta-feira, 20 de janeiro, no Max.

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Dia especial com Joel Schumacher (e uma filmografia)

por max 19. janeiro 2012 11:14

 

Às ordens para dirigir

Sobre Joel Schumacher podemos dizer que ele é daqueles diretores sempre às ordens para dirigir. Poderíamos dizer que não é um autor da maneira como se estabeleceram autores – ou como nos referimos a autores - como Scorsese, Coppola ou Allen. Mas, paradoxalmente, Schumacher acabou sendo um diretor de filmes de gênero (o thriller seguro, a comédia segura, o terror seguro; o seguro entre aspas, por favor) que não podemos qualificar como fundamentais na história da cinematografia mundial, podemos dizer que são peças que tiveram seu momento, peças que inclusive lembramos e que fazem parte da história do cinema norte-americano.

 

Design de moda e os anos oitenta

Schumacher estudou moda, design de moda, e tem esse gosto para a estética que estabeleceu-se em sua obra como um interesse e uma qualidade visual que estão acima da média. Fez-se conhecer nos anos 80, quando o furor do novo cinema de Hollywood já havia se assentado (não me atrevo a dizer que havia passado) e os executivos, aproveitando aquele impulso, começavam a tomar pulso e aproveitar a situação, desta vez tendo como base o trabalho prévio daqueles que revolucionaram a maneira de entender, fazer e ganhar dinheiro no cinema no final dos anos 60. Mas, não tenha dúvida, Schumacher esteve lá nesses anos explosivos. Já em 1973, o encontramos em Los Angeles (ele é de Nova York) fazendo o figurino de Dorminhoco (Sleeper), de Woody Allen (também de Nova York). Cabe destacar que o figurino nessa obra dos primeiros anos do mestre Allen tem um papel muito importante, muito marcante e é assim porque está magnificamente perfeito e encaixado na delirante fantasia futurista de Allen. Talvez já naquela época, Schumacher estivesse guardando para si o sonho da direção, porque, no ano seguinte (1974), dirige seu primeiro filme para televisão, Virginia Hill, a história de uma prostituta amiga do famoso criminoso Bugsy Seagal. Schumacher escreveu o roteiro e dirigiu o filme, e isso é preciso destacar: naqueles anos (estamos falando dos anos 70), quem queria ser autor devia escrever, produzir e dirigir seu próprio filme. Não é de se estranhar que ele, naquela época, quis fazer parte do grupo de cineastas da nova Hollywood, e trabalhou para ela.

 

 

O salto às estrelas

Depois de outro filme para televisão em 1975, Amateur Night at the Dixie Bar and Grill, o diretor recém-estreado finalmente dá o salto para o cinema com a comédia fantástica A Incrível Mulher que Encolheu (The Incredible Shrinking Woman, 1981), para logo repetir com outra comédia dois anos mais tarde, D.C. Cab, protagonizada por Mr. T, comédia (como já se disse) com muito de ação. Neste momento, Schumacher tinha tomado um caminho que se distancia respeitosamente do cinema autoral. É um diretor bem sucedido sim, mas emoldurado, engessado pela moda e pelos formatos que o cinema comercial impõe. Em 1985, entrega O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (St. Elmo´s Fire), filme que faria parte do pacote de produções estreladas por jovens promissores. Lembremos de Gatinhas & Gatões (Sixteen Candles, 1984), Clube dos Cinco (Breakfast Club, 1985), A Garota de Rosa Schocking (Pretty in Pink, 1986), Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller´s Day Off, 1986), entre outros. O mestre absoluto deste tipo de filmes, naquela época, era o roteirista e diretor John Hughes. Assim, Schumacher apareceu, não para tomar um lugar e fixar-se, mas sim para dar sua contribuição, mais glamourosa e com estrelas um pouco mais adultas e sensuais como Demi Moore e Rob Lowe, e os já clássicos do cinema juvenil Emilio Estevez, Ally Sheedy e Judd Nelson. A esta altura, Schumacher já tinha uma certa fama, seus filmes eram bem acabados, faziam boas bilheterias e, além disso, ele sabia dirigir estrelas. Começaria assim a ser um diretor para estrelas e a oscilar entre os filmes de fantasia e suspense e os dramas e as comédias leves, protagonizados por grandes astros.

 

Entre a luz e a escuridão

Em 1987, Schumacher apresenta Os Garotos Perdidos (The Lost Boys), um filme de vampiros estrelado por figuras juvenis que, naquele momento estavam em ascensão: Kiefer Sutherland, Jason Patric e Corey Haim. Uma história de vampiros na América, vampiros juvenis, bonitos e muito bem vestidos (lembremos que Schumacher estudou moda), mas também, ao mesmo tempo, aterrorizantes e violentos. O jovem espectador que naquele momento não tenha ficado fascinado com Os Garotos Perdidos devia estar vivendo em um lugar onde não havia salas de cinema.

Depois, em 1989, o diretor voltaria a fazer uma comédia eloquente com Ted Danson e Isabella Rosselini, Um Toque de Infidelidade (Cousins) e, no ano seguinte, pularia para o suspense metafísico ou científico com Linha Mortal (Flatliners), outro dos grandes acertos de sua carreira. Ali teria Julia Roberts e Kiefer Sutherland, mas desta vez estaria mais cômodo, pois se moveria em um terreno onde já se sentia mais à vontade. Linha Mortal foi outro grande estouro de bilheteria e um motivo adicional para perceber Schumacher como um excelente diretor de filmes de gênero. Os grandes estúdios sentiram firmeza nele, Julia Roberts o queria, e com ele esteve de novo no ano seguinte em Tudo por Amor (Dying Young), um drama eloquente, nada de outro mundo, mas com ela no elenco, e isso era o que importava. Seguindo na tônica de um para a luz e outro para a escuridão (você escolhe quais filmes são da luz e quais são da escuridão), no ano seguinte a Tudo por Amor, Schumacher dirige aquele que talvez seja o filme mais original e mais alheio ou distante de todas as fórmulas de Hollywood: Um Dia de Fúria (Falling Down), uma verdadeira obra prima cheia de ruído e ira, protagonizada por Mchael Douglas, no papel de um desempregado que tem um dia de fúria absoluta. O que aquele homem faz, a maneira como se joga contra toda a estupidez humana é tão dura e ao mesmo tempo tão sincera, que acabamos nos identificando com o personagem. Uma peça rara, uma peça que poderia ter sido feita por Scorsese, um filme que poderíamos chamar de autor.


 

Batman, Grisham, a queda

Depois viria um período da carreira de Schumacher que oscilaria entre John Grisham e Batman. O Cliente seguido de Batman Eternamente (Batman Forever) e logo Tempo de Matar (A Time to Kill), para voltar ao mascarado com Batman & Robin, filme que lançou-o ao fosso da desgraça, pois foi um estrondoso fracasso de bilheteria e de crítica, tanto que os estúdios lhe negaram a sequência e recusaram sua direção. Os fãs e o público odiaram o filme e, em uma entrevista, Schumacher apareceu pedindo perdão por ter cometido o horrendo crime artístico, que incluía, para espanto de todos, ter mexido nas roupas de Batman e Robin.

 

Salva-vidas e outras lições

No final desta década, Schumacher se entrega completamente a dois filmes no mesmo ano: 8MM – Oito Milímetros (8MM) e Ninguém é Perfeito (Flawless). Com 8MM – Oito Milímetros (1999), o cineasta insiste em uma volta à obscuridade, às profundezas da alma, onde se faz (como já disse) o melhor cinema. 8MM – Oito Milímetros, protagonizado por Nicholas Cage e Joaquin Phoenix, mergulha no mundo dos filmes snuff, da pornografia, do sexo abjeto, da vingança e da morte. Lembra, sem dúvida, Tesis (1996), de Alejandro Amenábar, mas também Hardcore (1979), de Paul Schrader, uma referência talvez muito mais próxima para Schumacher – Schrader fez parte dessa nova onda de diretores de Hollywood – referência também para Andrew Kevin Walker (roteirista de 8MM – Oito Milímetros). 8MM – Oito Milímetros é um filme que se enfronha nas obscuridades da alma, expõe os conflitos morais e destrincha a natureza do mal. Ninguém é Perfeito, por sua vez, é um drama com toques de comédia e traços de obscuridade. Claro que dois grandes atores dão apoio à obra: Robert De Niro e Philip Seymour Hoffman. De Niro faz um policial aposentado a ponto de ter um enfarte, e Philip Seymour Hoffman interpreta um adorável travesti.

 

E com a lição aprendida

Voltam então a subir os números de Schumacher, que parece ter aprendido a lição, ou seja, que seu lugar é onde estão o thriller, as obscuridades do homem, ali onde há guerras, drogas, assassinatos e muito suspense para prender a todos em suas cadeiras. Nesse caminho, ele segue e nos entrega vários filmes de respeitável repercussão: Tigerland – A Caminho da Guerra (Tigerland, 2000), seu único filme de guerra com Colin Farrell liderando o elenco; Em Má Companhia (Bad Company, 2002), sobre as correntes ocultas que envolvem a CIA, aqui com Anthony Hopkins e Chris Rock; Por um Fio (Phone Booth, também de 2002), outra vez com Colin Farrell e com o velho amigo Kiefer Sutherland, um filme tenso, milimétrico, que explora também o mundo da moral e dos instintos dentro de uma cabine telefônica; O Custo da Coragem (Veronica Guerin), história que não se distancia do caminho das obscuridades da alma, do suspense e tampouco dos dilemas morais e sociais, neste caso com a participação de Cate Blachett como heroína. No ano seguinte, Schumacher nos traz seu primeiro musical, O Fantasma da Ópera (The Phantom of the Opera), baseado na obra de Gaston Leroux, mas principalmente na produção da Broadway. Muita decoração, muita música, muito figurino, muita teatralidade; certamente Schumacher sentiu-se muito livre e muito confortável contando essa história, que não deixa de ter sua fascinação pelo lado obscuro. Três anos depois, em 2007, Schumacher volta com Número 23 (The Number 23), com Jim Carrey, um filme que explora a natureza da loucura, da literatura de ficção e do crime. 2009 é o ano de Renascido das Trevas (Blood Creek) e aqui o diretor faz uso dos elementos da vingança, das relações entre os irmãos e da maldade do nazismo. Em 2010 apresenta Twelve – Vidas Sem Rumo, baseado no livro de Nick McDonell, publicado em 2002, quando McDonell tinha somente 17 anos. Trata-se da história de um jovem que vive em Nova York e que, depois de abandonar a escola, transforma-se em um traficante de drogas para garotos ricos; retrato de uma geração, um olhar frio e distanciado da juventude de nossos tempos, herdeira de muitos vícios e poucas virtudes. No final do ano passado estreou Trespass, produção estrelada por Nicolas Cage e Nicole Kidman. Aqui, Schumacher volta a explorar o mundo da alta burguesia, que tem sua tranquilidade quebrada por causa de um sequestro dentro de casa. O final carregado de tensão é um caminho perfeito para aprofundar os conflitos e obscuridades dos sequestradores e sequestrados.

 

 

Na balança da glória e da culpa

Joel Schumacher é um diretor que não pode ser deixado de lado. Apesar de alguns de seus filmes parecerem realmente descartáveis. São produções que, por terem ido em busca de bilheteria, perderam seu norte, seu horizonte; mas Schumacher é também um diretor que realizou peças cinematográficas de grande repercussão, com excelentes histórias e excelentes atuações. Estamos falando de um diretor que entre ir e vir como cavalo de batalha dos grandes estúdios, continua procurando seus temas, suas obsessões e as histórias com as quais se sente confortável, evitando chegar tão baixo quanto foi na época de seu segundo Batman. Tem conseguido? Está trabalhando nisso, me parece, e além disso tem rolos de filmes guardados em casa.

 

O que Max nos traz

Este mês, o Max oferece três filmes de Joel Schumacher. Nesta quinta-feira, 19 de janeiro, aproveite para ver 8MM – Oito Milímetros, Twelve – Vidas Sem Rumo e Os Garotos Perdidos, uma perfeita oportunidade para recordar os anos 80, para dar o salto dos anos 80 ao século XXI, e para reviver a jovem geração daquela época. A sociedade, seus horrores, seus pesadelos e suas realidades, tudo, através do olhar de Joel Schumacher.

Lembre-se, nesta quinta-feira, 19 de janeiro, Joel Schumacher estará no Max.

Devdas, ou as paixões de Shah Rukh Khan e Aishwarya Raí

por max 16. janeiro 2012 11:54

 

Nesta segunda-feira, 16 de janeiro, continua o ciclo de cinema da Índia, desta vez com Devdas (2002), um dos filmes da chamada Bollywood mais conhecidos internacionalmente e que acabou destacando fora do seu país duas de suas maiores estrelas: Shah Rukh Khan e Aishwarya Raí. Sha Rukh é o ator mais bem pago e de maior prestígio na Índia, um verdadeiro astro. Aishwarya é modelo e atriz muito inteligente, que já foi considerada uma das mulheres mais bonitas do planeta (veja foto acima); de fato, Aishwarya foi miss Mundo em 1994. Não sei se isso significa algo tão importante assim, mas Julia Roberts chegou a dizer que Aishwarya era a mulher mais bonita da face da Terra. Sob a direção de um dos cineastas de maior renome de Bollywood, Sanjay Leela Bhansali, e com a atuação dessas duas grandes estrelas, Devdas deu um salto internacional quase que imediato, e chegou inclusive a ser exibido em Cannes, onde causou alvoroço. Um drama com dança e música –as marcas da fórmula mágica de Bollywood– sobre um amor impossível, uma espécie de Romeu e Julieta misturado com Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas), de Mike Figgis (você lembra de Nicolas Cage em um de seus poucos papeis decentes e da linda Elisabeth Shue interpretando uma prostituta?). Como na história dos apaixonados italianos, tudo começa com um forte conflito familiar, mas, neste caso, causado pelas diferenças de classes; Devdas (Shah Rukh Khan) é descendente de uma família rica, e está apaixonado por Parvati, uma belíssima jovem (claro, é Aishwarya) de uma classe inferior. A família de Devdas se opõe ao casamento do rapaz com a gata borralheira e, em consequência disso, a mãe dela revida de uma maneira determinante: arranja o casamento de Parvati com um viúvo rico. O dilema do amor impossível leva Devdas à loucura, ao alcoolismo e a procurar a prostituição. No Despedida de Las Vegas da Índia (cabe aqui destacar, porém, que o filme é baseado em um romance de Saratchandra Chatterjee, publicado em 1955, portanto muito anterior ao filme de Figgis), Devdas conhece a cortesã Chandramukhi, interpretada por outra belíssima atriz daquele país, Madhuri Dixit, ganhadora de cinco prêmios Filmfare, considerado o Oscar da Índia. Chandramukhi acaba sendo uma garota doce que se apaixona por Devdas, o que contribui para complicar ainda mais os conflitos existentes no filme que, apesar de seu glamour, suas canções e suas danças, termina levando a história a um final desolador.

Boatos deram conta que Shah Rukh Khan e Aishwarya Raí se apaixonaram durante as filmagens de Devdas, mas a relação terminou pouco tempo depois, paradoxalmente – ao que parece – por causa das reações violentas de Shah Rukji Khan durante suas bebedeiras. A realidade a ficção sabem dar as mãos para brincar em jogos bem cruéis.

Devdas, terceiro filme do ciclo de cinema de Bollywood, nesta segunda-feira, 16 de janeiro, no Max.

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Homens e Deuses, ou a beleza de um filme espiritual

por max 13. janeiro 2012 11:35

 

Neste domingo, 15 de janeiro, o Max nos traz Homens e Deuses (Des Homens et des dieux, 2010), do cineasta Xavier Beauvois (Nord, O Pequeno Tenente/Le petit lieutenant, Don´t Forget you´re Going To Die), um filme baseado em um fato histórico ocorrido durante a guerra civil da Argélia nos anos 90, conflito armado e sangrento que deu-se entre o governo e vários grupos radicais islâmicos e que terminou somando mais de 150 mil mortos, entre eles integrantes de um grupo de monges da Ordem do Cister, abadia da Ordem de São Bernardo, sequestrados em 1996 no monastério de Nossa Senhora de Atlas (Notre Dame de Atlas) em Tibhirine, a 60 quilômetros de Argel. Ainda que os fatos pudessem levar o filme para um tom político, Beauvois decidiu seguir por outro caminho, o caminho que faz deste filme uma verdadeira obra de arte. O cineasta decide centrar-se nos monges e em seus conflitos pessoais, escolhe o espiritual, a dúvida, o coração, o templo, a complexidade do ser humano e suas convicções, decide apostar em uma decisão e ver o que há por trás dela, ou seja, coragem, medos, alturas. Aqueles monges estavam naquela região há várias décadas, as regras da congregação não determinavam a evangelização (é o mesmo que dizer que não estavam ali para levar o islamismo a ninguém), e eles viviam somente para rezar, para a meditação, para a caridade e para ser hospitaleiros com os necessitados. Durante o filme, Beauvois tem a ideia de ir mostrando o contraste da vida dos monges com o que vai acontecendo no mundo exterior; nos mostra o horror, mas também a estreita e fraterna relação dos monges com a comunidade. Aqueles religiosos eram liderados pelo padre Christian de Chergé, um homem admirável de origem francesa que conhecia a Argélia desde jovem e que esteve também ali, lutando do lado dos franceses, durante a guerra de independência da Argélia, quando um amigo muçulmano salvou sua vida. Chergé era um homem profundamente espiritualizado, acreditava na fraternidade entre as pessoas e as religiões, inclusive tinha estudado o Alcorão. Essa sabedoria ele transmitiu desde seu priorado (priorado, vale dizer, é o cargo do pároco ou superior de convento de ordens monásticas) aos membros do monastério, e também para a comunidade. Ainda que o filme de Beauvois funcione de maneira cristã, não resta dúvida que a força da história recai mesmo sobre o personagem de Chergé, interpretado por Lambert Wilson (muitos vão lembrar de seu personagem na trilogia Matrix). Beauvois segue o prior e seus monges desde o momento em que começam as ameaças à comunidade, os crimes nas redondezas, a clara repreensão que os fundamentalistas faziam a eles, e centra-se na trajetória espiritual que devem fazer os mesmos que tomarem a decisão que marcará seus destinos. Contudo, para chegar a isto, dá-se um processo complexo de dúvidas, opiniões, confrontações entre os monges e também com a comunidade. No final, os monges decidem permanecer no lugar e, ao fazê-lo, conscientemente ou não, convertem-se em pessoas perigosas. Você simplesmente não faz o que os demais querem que você faça e se transformará em alguém perigoso. Fique quieto, simplesmente decida-se a ficar no lugar, e verá como os ânimos daqueles que se dizem justiceiros ficam alterados. Piores são os justiceiros de Deus. No filme, o cineasta nos oferece a seguinte citação de Pascal: "Os homens jamais fazem o mal tão completa e alegremente quando não o fazem por convicção religiosa". Duas coisas se pode tirar desta frase em relação ao filme. A primeira é que o diretor não se situa nem a favor, nem contra nenhuma das religiões em jogo; o dano, o horrendo, é o fundamentalismo. A segunda, e esta talvez seja uma avaliação delicada: parecia que a única maneira de atuar diante do radical seria sendo radical também. Mas radical como? Aqui fica demonstrado que ser radical, para os radicais, é não obedecer a eles, não temê-los, não pensar como eles. Os monges, então, poderiam dizer que tomaram uma atitude extrema: ficaram ali, mesmo sabendo que suas vidas estavam em risco. Permaneceram, resistiram sem violência, e resistir assim, a partir da paz, é talvez uma forma de espiritualidade e de ação radical, por assim dizer. Nos dias em que Christian de Chergé achou que a morte estava próxima, escreveu o conhecido "Testamento Espiritual". Em muitas partes da obra, fica mais que claro o amor do monge pela Argélia e por seus irmãos muçulmanos, e também sua clara consciência sobre o conflito em que ele se encontra naquele momento: "Se acontecer de, um dia - e esse dia poderia ser hoje -, ser vítima do terrorismo, que parece querer abarcar a todos os estrangeiros que vivem na Argélia, eu gostaria que minha comunidade, minha Igreja, minha família lembrem que minha vida estava ENTREGUE a Deus e a este país." A vida dele estava entregue, sem dúvida, e estava direcionada ao bem comum. Sabendo inclusive que sua morte iria causar espanto internacional, ele aproveitou para mandar uma mensagem e chamar pela consciência de todos: "Que saibam associar esta morte a tantas outras tão violentas e abandonadas na indiferença do anonimato." E mesmo que tivesse consciência de que seu nome não passaria em vão, com toda a humildade, ressaltou que sua vida não valia mais do que a de qualquer outra pessoa. "Tampouco tem menos. Em todo o caso, não tenho a inocência da infância. Vivi o suficiente para reconhecer que sou cúmplice do mal que parece, desgraçadamente, prevalecer no mundo, inclusive do mal que poderia me golpear cegamente." E assim continuou escrevendo: "Eu não poderia desejar uma morte semelhante. Parece-me importante destacar. Realmente, não vejo como poderia me alegrar com o fato de que este povo que eu amo seja acusado, sem diferença, de meu assassinato." No final do texto, Chergé voltou a explicitar seu amor pela Argélia e seu respeito pelo Islã: "Conheço o desprezo com o qual são tratados os argelinos. Conheço também as caricaturas do Islã fomentadas por um certo islamismo." E logo depois terminou, dando graças a Deus por ter permitido que ele pudesse gozar sua vida; dentro dessas graças incluiu a seus amigos, sua mãe, seu pai, e a aquele que será seu assassino. Assim disse: "E a você também, amigo do último instante, que não sabia o que fazia." Expressava assim não somente seu agradecimento e seu perdão, mas também seu desejo de encontrar seu assassino no Paraíso, "como ladrões felizes". E assim, em uma demonstração profunda de humanidade, Chergé terminou seu testamento da seguinte maneira: "Amém! Im Jallah!"

Homens e Deuses, ganhador do grande prêmio do júri em Cannes e vencedor absoluto dos prêmios César, neste domingo, 15 de janeiro, no Max.

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A Cabeleireira, ou ser gorda no capitalismo

por max 13. janeiro 2012 11:33

 

Com as vanguardas artísticas, o conceito de beleza começa a mudar e aqueles padrões do realismo trazidos pela modernidade são questionados até a morte, exaustivamente. A beleza, até aquele momento, tem duas fontes fundamentais: a realidade em si, em especial a natureza, que entende-se como a imitação ou a mimese de tudo o que é a natureza e o mundo e, sempre de fundo, o cânone da beleza (ou a regra, o parâmetro da beleza) que vem dos gregos, essa forma idealizada, estilizada, perfeita da realidade. Ambas as maneiras de entender a beleza se estabeleceram em paralelo ao longo dos séculos, apesar do estímulo da vanguarda, apesar daquela frase famosa de Lautréamont: "Belo como o encontro de um guarda-chuva com uma máquina de costura sobre uma mesa de dissecação". Se bem que agora a contemporaneidade conhece a relatividade do conceito, herdada dos questionamentos já assinalados; a beleza segue cumprindo os parâmetros que chamamos de clássicos, que explodem no mundo da moda, da publicidade, dos concursos de beleza e inclusive do universo pornográfico, em um redemoinho de referências cada vez mais idealizadas e complexas. A muito fraca, a anoréxica, a de seios fartos, a de olhos muitos grandes, a nórdica, a latina, a negra, a oriental, assim, imagem sobre imagem, acessório sobre acessório, como se a beleza fosse uma Barbie que vamos vestindo para cada ocasião. Mas essa ideia da Barbie, porém, não deixa de ser essencial. Há um modelo, um ideal digamos platônico, um modelo do que é o belo, que tem sua origem naquela cultura grega que destaco, e mesmo que as variantes possam multiplicar esses exemplos, do que se tem certeza é que a beleza tem seus limites. Os parâmetros de uma bela mulher, segundo a lei do mercado, existem. O mercado da beleza tem seu preço, e se valoriza alto e com força, com vontade e com fervor.

A Cabeleireira (The Hairdresser, 2009), da diretora Dóris Dörrie, aponta essas questões sobre o belo, e nos apresenta Kathi (interpretada por Gabriela Maria Schmeide), uma cabeleireira de Berlim, mãe solteira e extremamente gorda, confrontando sua obesidade em um mundo onde o aspecto, a imagem, a beleza dominam as relações e os negócios: o mundo das cabeleireiras, que corresponde, por sua vez, ao nascente capitalismo da Berlim unificada. Kathi acaba sendo uma estranha no novo mundo do seu mercado de trabalho; seu aspecto é desagradável para muitos, assim como a raça também é desagradável para muitos. Kathi e os outros, Kathi que se converte nos outros. Ela passa a estreitar as suas relações com os imigrantes orientais, que vemos no filme, inclusive os que ela traz do outro lado do muro, e que na Berlim já unificada é desejo integrar-se ao mercado de trabalho, ali onde tudo, ofício, publicidade, beleza e política, tudo é parte da mesma coisa. Jean Baudrillard dizia que agora vivemos em um mundo onde tudo se transformou em estética, onde tudo transformou-se em arte e já não há arte, de tanto que há arte em todos os lugares. Em uma sociedade assim, quem não compartilha dos parâmetros de beleza e não joga segundo as leis de mercado passa a ser o outro, o outro que vem da outra Berlim, o outro que é obeso, a outra que é mãe solteira, o outro que é de outro país e que é pobre e imigrante, de outra raça, o outro que não se encaixa. Tudo isto está em A Cabeleireira, sob o ponto de vista da comédia, sofrimento de lindas cores que nos faz rir mas também nos põe diante da realidade, talvez com um pouco de otimismo (refletido no personagem) sobrecarregado... mas, convenhamos, a alegria também conta diante de um bando de idiotas que querem agarrar-se à felicidade e tê-la somente para eles.

A Cabeleireira, nesta sexta-feira, 13 de janeiro, no Max.

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A Última Estação, ou os últimos dias do complicado Tolstoi

por max 11. janeiro 2012 03:21

 

Falar de León Tolstoi é algo bem difícil. Tolstoi era um homem complexo em tempos complexos. Seus anos foram os anos da ebulição dos pensamentos utopistas, socialistas, marxistas, anarquistas, coletivistas, todos argumentos organizadores do mundo da modernidade que nos levavam a acreditar no futuro, esperança, luz, ciência e razão. Daquela Rússia mergulhada no czarismo feudal surgiu a primeira revolução de 1905, guiada pelo inconformismo generalizado das pessoas e por todas as ideias libertárias reinantes da intelectualidade contra a autocracia czarista. Tolstoi, de origem nobre, cresceu com privilégios que alguém de sua classe poderia ter. Em sua juventude, usufruiu de uma vida dissoluta, se entregou também ao levar do destino, foi oficial na guerra, mas logo começou a derivar pelas preocupações sociais da época. Como todo filho de proprietário de terras esteve ligado ao campo, e ali estavam também as lembranças de sua infância que se configuraram como sua tábua de salvação, pra onde voltava seu olhar de escritor, mas também de redentor do homem espiritual que buscava resgatar o camponês da obscuridade, pivô fundamental de muitos pensadores do final do século XIX e início do XX. Na Russa czarista desse interstício, as mudanças na área econômica e cultural tinham começado. O político e o social seguiam no mesmo lugar, trabalhando em favor dos mais poderosos. Mas essa nova visão do mundo, que traía a modernidade, com seus argumentos científicos e racionais, deixada de um lado o pensamento religioso e monárquico que imperava e que fazia o jogo de conveniências para uma minoria. Não sem motivos: a igreja e a monarquia tinham se imposto durante séculos, haviam ditado as regras do mundo tendo como base a fé, a fé irracional (e não digo de forma pejorativa; sim existe algo realmente irracional na fé). León Tolstoi, nesse sentido, nunca encaixou-se completamente nos postulados dessa modernidade; tinha uma profunda fixação religiosa - vinda do monárquico - que se estendeu por seu pensamento social, ainda que, não creio que seja correto considerar que fosse um socialista cristão. Nele, homem complexo, inteligente, profundo e não dogmático, também existe aquele que respeita as ideias alheias, no qual se mobilizavam diversas correntes de ideias. Havia em Tolstoi muito de bondade e coletivismo cristão e possivelmente também de Proudhon, Fourier e do conde de Saint-Simon, entre outros. Também não esteve totalmente cercado e unido aos ideais marxistas, não somente por seu sentimento religioso, mas também porque para ele era importante a resistência pacífica, inspirada em grande parte pelo mesmo cristianismo e por Thoreau e sua resistência civil. Melhor explicou o próprio Lênin em um artigo que publicou em 1908 em O Proletariado. Uma parte do artigo, intitulado "Tolstoi, espelho da revolução russa", diz assim:

 

"As contradições nas obras, nas ideias, nas teorias, na escola de Tolstoi, são verdadeiramente flagrantes. De um lado, é um artista genial, que não somente produziu telas incomparáveis da vida russa, mas também obras de primeira ordem na literatura mundial. De outro, é um filho de proprietário de terras possuído pelo fanatismo do cristianismo (...) Aqui, uma crítica implacável da exploração capitalista, a denúncia das brutalidades do governo, dessa comédia que são a justiça e a administração pública, uma análise de todas as profundas contradições entre o aumento das riquezas e as conquistas da civilização e o aumento da miséria, o embrutecimento e as penalidades das massas operárias; além disso, o sermão fanático do "não opor-se" através da violência "ao mal"."

 

Evidentemente, Lênin punha o dedo em suas chagas revolucionárias, joagava na cara, atacava o defunto e a seus seguidores, mas ao mesmo tempo louvava; Tolstoi nunca foi totalmente do grupo dos que Lênin considerava os bons, pelas razões que já expusemos e pelas mesmas que Lênin assinalava.

Tolstoi era, sem dúvida, um homem de múltiplas visões, poderíamos dizer inclusive que de contradições. Ao mesmo tempo que projetava todas suas forças para falar do camponês russo e alinhava sua vida por esses caminhos naquele supremo esforço de passar a maior parte do tempo entre os trabalhadores do campo, também era sapateiro e voltado a educar crianças pobres, e o vemos também casado com Sofia Behrs, nobre russa, mulher acomodada mas não displicente, que esteve muitos anos junto àquele homem teimoso e sonhador, que, temerário e um tanto egoísta, se lançava em sua arte, em suas obsessões, em seus projetos. Ela, abnegada, sempre se ocupou das finanças do marido, de cuidar dele enquanto ele se entregava às suas fantasias. Diz-se que ela copiou sete vezes o manuscrito de Guerra e Paz, sempre preocupada com as correções da obra. Conhecedora da importância de seu marido, o fotografou em repetidas ocasiões e escreveu um diário onde documentou cada instante de sua vida. Sempre esteve ali, ao seu lado, cuidando de seus filhos e do lar, onde ele apenas ia para dormir, envergonhado de ter aquela espécie de vida dupla entre seu dever com o camponês e a opulência burguesa. Aquele conflito viveu em Tolstoi durante toda sua vida, mas sobretudo nos últimos anos.

Filmes como A Última Estação (2009), que você poderá ver este mês no Max, nos mostram aquele momento crítico no qual Tolstoi, já de idade avançada, sente cada vez mais uma imperiosa necessidade de deixar todos os seus bens materiais, de renunciar a seu título de nobreza e doar todos os direitos ao povo, ou para esse mito que, para ele, era o povo.

Sob a direção de Michael Hoffman (O Outro Lado da Nobreza/ Restoration), Christopher Plummer, Helen Mirren e Paul Giamatti encarnam os três personagens principais dessa história dramática baseada em fatos históricos. Mirren, no papel da esposa, Plummer como escritor russo, e Giamatti como o homem possivelmente responsável pelas últimas e radicais decisões do grande homem. Trata-se de um filme feito com delicadeza e precisão cenográfica que dá lugar às atuações soberbas destes três grandes intérpretes que são bem sucedidos ao reproduzir a paixão de seus personagens e comover o espectador. Nesse sentido, não podemos deixar de lado a interpretação também significativa de James McAvoy como o último ajudante e futuro biógrafo de Tolstoi, Valentim Bulgakov, que padece, com inocência e estofo moral, ao fogo cruzado da esposa e o conselheiro idealista.

A Última Estação nos apresenta aqueles últimos anos do escritor como uma luta por chegar a ser totalmente fiel aos princípios que são, se me permitem dizer, uma forma de amor. Porque, lá no fundo, o que movia Tolstoi era uma luta profunda entre dois amores: seu amor pelo mundo e seu amor a sua família, a sua mulher, a Sofia Behrs, personagem que também sofre e vive os sentimentos próprios e os de uma época de profundas mudanças para a história da humanidade na qual o 'amor pela razão' impunha-se/sobrepunha-se ao 'amor pelo amor'.

A Última Estação, nesta quarta-feira, 11 de janeiro, com reapresentação no sábado, dia 14, no Max.

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