Ciclo de Cinema de Bollywood no Max

por max 30. dezembro 2011 06:49

 

O Nâtya-shâstra é um tratado artístico escrito por volta de 400 A.C. que marcou a histórias das artes da Índia. Ao contrário do ocidente, na Índia, nâtya -que é traduzido de forma incompleta como "dança"- engloba tanto o teatro, como o canto, a oratória e a música. Assim, como se vê, a arte na Índia é considerada um todo, e portanto não é de se estranhar que então, em Bollywood, o cinema inclua dança e canto como interpretação artística. É um costume mais que milenar que sem dúvida se projeta sobre o cinema de Bollywood, que produz cerca de 1.000 filmes por ano e que fascina com suas histórias românticas, mas que nunca, nunca, mostra um beijo na tela. Bollywood é um lugar em nenhum lugar, isso mesmo, é o mesmo que dizer, que não há estúdios como ocorre em Los Angeles; Bollywood, poderíamos dizer, fica em Mumbai, mas na realidade está em toda parte. De fato, para alguns realizadores da Índia, Bollywood é um termo depreciativo e simplista que não mostra a complexidade do cinema feito lá, e que inclui realizações de origem tâmil, malaia ou telegu, entre outros. Certeza mesmo é que, seja onde for, o cinema feito na Índia produz grandes sucessos de bilheteria com suas fórmulas milenares tiradas do Nâtya-shâstra. Mas na Índia há aproximadamente 12.000 salas de cinema e os ingressos são baratíssimos, o que é um dos principais entretenimentos do povo.

Este mês, o Max apresenta um ciclo de cinema de Bollywood. Em janeiro, toda segunda-feira, você poderá deliciar-se com um filme diferente, feito na Índia. Os filmes são: Estou Aqui Agora (Main Hoon Na, segunda-feira, dia 2), Incrível Amor (Kambakkht Ishq, segunda-feira, dia 9), Devdas (Devdas, segunda-feira, dia 16), eVeer y Zaara (Veer y Zaara, segunda-feira, dia 30).

Mas vejamos o que teremos nos dias 2 e 9:

 

 

Segunda-feira, dia 2, Estou Aqui Agora (Main Hoon Na, 2004): Um filme da coreógrafa, diretora, produtora e atriz Farah Khah. Estou Aqui Agora move-se no mundo militar, entre guerras que terminam e entre indianos e paquistaneses, para nos presentear com uma comédia romântica com muita dança, alegria, protesto político nas entrelinhas e um pouco de James Bond. O filme conta com a participação da bela Sushmita Sem, com o ator mais importante de lá, Shah Rukh Khan, que tem recebido uma grande quantidade de prêmios em seu país.

 

 

Segunda-feira, dia 9, Incrível Amor (Kambakkht Ishq, 2009): É também uma comédia romântica (suspeito que todas elas serão) de Sabir Khan. O primeiro filme deste cameraman com muita experiência, que se joga mesmo e nos leva a Hollywood, onde um dublê de cinema da Índia vive seus piores e melhores momentos, e claro acaba apaixonando-se para perceber que, na verdade, o verdadeiro amor está em toda a parte. O filme conta com pontas de Sylvester Stallone, Denise Richards e Whoopi Goldberg, entre outros.

 

Você já sabe: nesta segunda-feira, dia 2 de janeiro, começa o Ciclo de Cinema de Bollywood, no Max.

Revolução em Dagenham, ou a mulher contra a prisão da fábrica

por max 30. dezembro 2011 06:42

 

Um dos aspectos fundamentais da pós-modernidade é o tema dos sexos. No estouro dos grandes relatos de organizadores do mundo, ocorre o desequilíbrio ou a queda da concepção centralista do homem-masculino como o instaurador das realidades dos poderes. A mulher, na pós-modernidade, busca seu lugar no mundo, reclama seu lugar no mundo, sua igualdade de direito. A mulher busca sua voz e vai deixando de ser aquele ser menosprezado, esquecido de lado no lar, ou limitado à fábrica com menos benefícios do que o homem. Há alguns anos, vi Anticristo (Antichrist, 2009), de Lars von Trier. Que filme excelente! Von Trier mostra uma realidade terrível, uma visão psicológica profunda: a visão do homem sobre a mulher. Von Trier mostra como, durante séculos, a mulher tem sido temida. Assim, temida pelos homens. Esse outro ser, fisicamente diferente, também tem sido considerado diferente sob o ponto de vista psicológico e também de alma. E tomara que seja assim mesmo, mas aquela discordância sobre o que o homem criou, no próprio homem, é temor e reflexo da obscuridade, da maldade, da loucura. A mulher, durante séculos, tem sido a louca, a bruxa, a má. É preciso dominá-la, mantê-la em rédea curta, mantê-la na linha, esse é o pensamento básico que predominou durante séculos, e isso é o que nos mostra Lars von Trier em seu filme terrível. Alguns menos avisados poderiam considerá-lo como mais um horror contra a mulher. Mas não é isso, o diretor fala mais bem da mulher do que o contrário. Anticristo é uma defesa da mulher.

Mas desculpem que tenha utilizado um filme para falar de outro. Preciso falar, na verdade, de Revolução em Dagenham (Made in Dagenham, 2010), um trabalho de Nigel Cole (Garotas do Calendário, O Barato de Grace), que centra-se na fábrica, esse lugar de aprisionamento, de disciplina. Michel Foucault falou dele em Vigiar e Punir e em outros textos. A fábrica se assemelha à prisão, se assemelha à academia militar, se assemelha ao colégio. A fábrica é um lugar de muitos, vigiado ou controlado por poucos. A fábrica é o lugar onde o corpo é adestrado, dominado e torna-se eficiente em função de produzir; ali o corpo não se revela, ali o corpo da mulher é uma máquina e não uma tentação. É neste recinto industrial onde Cole ambienta sua história, centrada em um fato histórico, ocorrido em 1968 na fábrica da Ford em Dagenham, na Inglaterra. Fundamental a atuação da atriz Sally Hawkins em seu papel de Rita O´Grady, uma personagem que não existiu na realidade mas que é uma fusão e uma lembrança das líderes daquele movimento que pleiteou igualdade de condições para as mulheres trabalhadoras da fábrica. Cole, como é seu hábito, opta por contar a história com certo frescor, sem cair nas obscuridades de Von Trier, e dando ainda um certo toque de comédia, de gostosa agilidade, o que dá um ar de humanidade, de esperança, de alegria e de triunfo à luta neste filme iluminado.

Revolução em Dagenham, neste 1º de janeiro, no Max.

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Sem Açúcar, ou a comédia romântica a la Bollywood

por max 27. dezembro 2011 06:30

 

Faz pouco tempo que Veena Malik desapareceu. Quem é Veena Malik? Uma atriz belíssima, uma daquelas atrizes lindas que Bollywood tem dado ao mundo, Veena, a bela Veena, tirou algumas fotos nua (ou seminua) para uma revista na Índia, e para completar, mostrando uma tatuagem da ISI, o serviço secreto paquistanês. O escândalo foi em dobro, pois Veena vive em Mumbai e é de origem paquistanesa. Veena, para evitar problemas, colocou uma burca e foi para o Paquistão renovar seu passaporte. Mas quando a descobriram, o mistério acabou. Não aconteceu nada com a atriz, mas a história de Veena Malik diz muitas coisas sobre a Índia e Bollywood. Em primeiro lugar, muitas das atrizes de Bollywood são belíssimas; sem segundo lugar, a Índia continua sendo um lugar onde algumas ousadias são consideradas fortes afrontas à moral e à religião. O cinema que Bollywood faz é um cinema comercial, sem dúvida, muito popular, que se concentra no romance, um pouco na comédia e muito na coreografia, na dança. O cinema feito em Mumbai, desde o começo, por volta dos anos 40, caracterizou-se por buscar esses aspectos da imaginação mais próximos do romantismo asséptico, cândido e claro com seu toque de maniqueísmo, onde o bem e o mal estão claramente identificados. Com o passar dos anos, a fórmula vem sendo mantida, mas obviamente a modernidade tem se infiltrado pouco a pouco. Nos últimos anos, um filme como Sem Açúcar (Cheeni Kum, 2007) já mostrava e criticava novos aspectos culturais e sociais. Neste caso, trata-se de um filme de R. Balki, um importante diretor criativo, que com seus conhecimentos de cinema publicitário, nos presenteia com um filme bom de ver, centrado, claro, no tema amoroso, mas com suas variantes. Um chefe chamado Buddahev Gupta (Amitabh Bachchan) fica anos em Londres, dedicado única e exclusivamente ao seu restaurante. Na vida, nada mais interessa a ele. É um homem amargurado, obsessivo, mas, é claro, aparece em sua vida uma bela mocinha. Ele tem 64 anos, ela 34. Nina (interpreta por Tabu) é belíssima, elegante e delicada. O chefe apaixona-se e isso muda sua vida toda, mas então surge um pequeno problema: ele precisa viajar para a Índia para pedir a mão da moça em casamento ao pai dela, um homem tradicional que não pensa em aceitar, em nenhuma circunstância, que sua filha se case com um homem mais velho. Aqui, como veremos, entra um novo elemento da modernidade, a crítica social em função da história, o que dá ao filme um sabor de originalidade que faz com que ele se destaque dos demais da sua espécie. Assim, Sem Açúcar se apresenta a nós como uma comédia romântica feita em Bollywood, muito bem dirigida e com seu toque de originalidade e disjuntiva social, que se separa do social.

Isso sim, não resta dúvida, é o que fica quando se trata de misturar ingredientes, o amor não conhece as diferenças, e isso é o que nos apresenta R. Baki nesta comédia da Índia para o mundo.

Sem Açúcar, último filme do ciclo Sensos de Humor, nesta sexta-feira, 30 de dezembro, no Max.

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Noite de Natal com Ricky e O Refúgio

por max 22. dezembro 2011 04:44

 

Neste sábado, 24 de dezembro, François Ozon nos faz companhia com todo seu talento, com todo seu carisma, com toda sua capacidade para provocar homens e mulheres, com toda sua genialidade para o sarcasmo. Sem dúvida, trata-se de uma excelente companhia para este Natal, quando o Max nos apresenta dois filmes do diretor francês que, como é habitual nele, centram-se na figura feminina, e que têm as mulheres como protagonistas. Estes dois filmes, que não por acaso foram produzidos muito próximos, são Ricky (2009) e O Refúgio (2010). Os temas são maternidade e vida, a maravilha de um filho e o fato de como ter um filho muda radicalmente a vida, como um filho traz toda essa inquietude de que ele logo irá ganhar asas e voar pra longe de você, para escapar de você, esse mesmo filho que reclama e exige o melhor de nós. Tanto Ricky, que explora os conflitos e a humanidade de um casal de poucos recursos, como O Refúgio, que sintoniza com as ideias da vida, da morte, da gravidez e do amor, são reflexos de uma mesma visão diante da realidade, compassiva e séria, mas ao mesmo tempo descrente de qualquer solenidade, estreiteza de ponto de vista ou puritanismo. Ozon é um diretor contemporâneo que se conecta muito bem com a sensibilidade dos nossos tempos, descrente, referencial, irônico, sarcástico, alimentado de nenhuma ideologia e de todas as ideologias ao mesmo tempo, o mesmo que ocorre com os gêneros, que se misturam entre si para produzir histórias híbridas. Ozon está aqui em nosso mundo, Ozon nos traz as histórias que nos tocam e brinca, se diverte, fica sério e toca nas feridas também. François Ozon é, sem dúvida, um diretor que merece estar conosco neste 24 de dezembro, um amigo inteligente que nos fará rir da dura realidade em Ricky e logo depois em O Refúgio, no Max.

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Continua o ciclo Sensos de Humor com Estrada de Rei e A Mulher do Meu Amigo

por max 14. dezembro 2011 13:50

(John William Waterhouse, A Tale from Decameron, 1916)

 

E em dezembro, o Max continua explorando o sentido do que a vida tem de sem sentido, no ciclo Sensos de Humor. Para a sexta-feira, dia 16 e para a sexta-feira, dia 23, os filmes são os seguintes:

 

 

Estrada de Rei (Kóngavegur, 2010): Uma comédia amarga que se esquenta com o drama das frias terras da Islândia. Levados pelas mãos da cineasta Valdis Óskarsdóttir, entramos em um caminho descampado para caravanas, deprimente, arruinado e cheio de personagens patéticos, espantalhos que não chegam a ser totalmente divertidos nem totalmente detestáveis. A família, a paternidade, a memória, a fortuna são os temas centrais deste filme que retrata um mundo de fantasmas e sombras no meio da neve, do frio e da distante Islândia.

Estrada de Rei, nesta sexta-feira, 16 de dezembro.

 

 

A Mulher do Meu Amigo (2010): Inspirado em uma peça de teatro, de humor, de Domingos de Oliveira, o filme tem, certamente, o clima teatral, pois tudo transcorre em uma casa de campo, onde os personagens vão se fechar para não querer sair por um bom tempo. Como se fosse um Decameron ou O Anjo Exterminador de Buñuel, ao contrário, e como se tratasse de um A Morte do Demônio sem mortes nem livros diabólicos, os dois casais desta história se trancam (alguns saem e não voltam) para viver na nudez de suas obscuridades, como costuma acontecer em todos estes relatos de pessoas fechadas em algum lugar. Porém, todas essas obscuridades, segredos e desejos vão se mostrando de forma engraçada, divertida e muito bonita, pois seu diretor, Cláudio Torres, trabalhou durante anos em publicidade e essa estética cheia de preciosismo do publicitário se reflete tanto neste filme como em Redentor (2004), seu primeiro longa-metragem. Em Redentor, o tema social estava muito presente, enquanto que em A Mulher do Meu Amigo, ainda que a estética persista, a intenção muda, pois o mesmo Torres afirma que o que visa é entreter, fazer rir, oferecer um passatempo às pessoas. Ainda assim, sente-se que há certo elemento muito francês no que diz respeito a esse tratamento das relações de casais para criticar a sociedade burguesa. Vale destacar que Torres foi também diretor da série original da HBO, Mandrake, magnífica série inspirada no personagem de Rubem Fonseca, protagonizada por Marcos Palmeira (como Mandrake, claro), e que, não por acaso, protagoniza A Mulher do Meu Amigo. Palmeira repete o papel de advogado, pois tanto Mandrake como Thales exercem a mesma profissão. No caso de Thales, trata-se de um personagem bem sucedido que, já farto de seus negócios ilegais com seu sogro, decide deixar de trabalhar e ficar na casa de campo onde vai passar férias, com a esposa de seu amigo e os filhos dela. Mas não se assustem, os respectivos cônjuges nem se incomodam, e voltam de lá juntos e felizes da vida porque são amantes há dez anos. Aquela partida, obviamente, abre as portas para o romance... dos dois que acabam ficando. E assim a história começa.

A Mulher do Meu Amigo, na sexta-feira, 23 de dezembro, no Max.

Ricky, ou a erupção do fantástico

por max 14. dezembro 2011 13:25

 

Uma das regras do gênero fantástico é que, precisamente, o feito, a ação que chamamos fantástica, nasce na medula da realidade. O fantástico, dizia Julio Cortázar, é uma maneira quase filosófica, antológica, de entender a realidade. Dizia que o fantástico, para ele, era aquilo que se opunha ao falso realismo. Em "Alguns aspectos do conto", ele diz que esse falso realismo "consiste em acreditar que todas as coisas podem ser descritas e explicadas da mesma forma como era embasado o otimismo filosófico e científico do século XVIII, é o mesmo que dizer que isso acontece dentro de um mundo regido mais ou menos harmoniosamente por um sistema de leis, de princípios, de relações de causa e efeito, de psicologias definidas, de geografias bem desenhadas nos mapas." De fato, aquele racionalismo da modernidade enfrenta as críticas românticas, das vanguardas e da mesma pós-modernidade e ali, nesse choque, entendemos novas formas de compreender a realidade. Os sonhos, a loucura, a obscuridade, o misticismo, a religião, as exceções. A realidade também pode ser explicada pela erupção da exceção. Continuamos com Cortázar: "No meu caso, a suspeita de outra ordem mais secreta e menos comunicável, e a fecunda descoberta de Alfred Jarry, para quem o verdadeiro estudo da realidade não residia nas leis senão nas exceções dessas leis, que foram alguns dos princípios indicadores da minha busca pessoal de uma literatura à margem de todo o realismo demasiadamente ingênuo." O sentimento do fantástico, segundo o mesmo Cortázar, é esse acreditar, esse intuir que o mundo no qual vivemos é tão somente uma parte, ou melhor dizendo, que a realidade que conhecemos é somente uma parte da realidade absoluta. Para conhecer o outro lado da realidade, temos que transpor, e a única forma de fazer isso é fixando-se, conhecendo, buscando as exceções. Essas exceções se encontram fortuitamente, se buscam ou inclusive se forçam, como faz a arte, que modifica, com suas histórias, a realidade para descobrir novas faces da realidade.

O cineasta francês François Ozon se caracterizou, não sei se por incluir o fantástico em sua obra, mas sim por essa capacidade para estranhar o mundo. É o mesmo que dizer que Ozon, com seu olhar, transforma a realidade em estranha. Ozon gosta das exceções, que não necessariamente são fantásticas. Porém, no filme Ricky (2009), o diretor lança mão do fantástico para mostrar a realidade, para descobri-la. Ali, no sonho de uma sociedade de classe operária, ali, em meio aos tormentos e lutas de um casal de pouca grana, ali de onde não se alcança o sonho e as esperanças. Ozon faz nascer um filho que irá criar asas. A intromissão do fantástico transforma-se em uma oportunidade para aprofundar a psicologia dos personagens, para explorar os medos e as alegrias, para iluminar as obscuridades. Ozon, no meio de um universo cinematográfico como o francês, que tende ao ritual realista da representação em torno da vida burguesa, em meio de um cinema que também, em algumas ocasiões, pecou de sério por autoral, se mostra como um autor que, paradoxalmente, assinala a realidade apesar de usar a alienação e o fantástico, e que acabou se constituindo em um autor sério, ainda que use constantemente o humor. Assim é Ozon, assim é Ricky.

Ricky, nesta quinta-feira, 15 de dezembro, no Max.

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A rebelião dos objetos, ou mesa de dissecação com liquidificador e pneu

por max 14. dezembro 2011 12:59

 

 

Em 1917, Marcel Duchamp quis fazer um objeto utilitário passar por obra de arte. Aquele objeto, um pinico, assinado por R. Mutt, intitulava-se "A fonte" e foi apresentado para participar da primeira exibição da Sociedade de Artistas Independentes. Era preciso pagar um valor muito pequeno para conseguir um lugar na mostra, e a mesma não contava nem com júri nem curadores. Mas aquele urinol foi recusado. Foi recusado pelos artistas mais revolucionários da época, porque consideraram o objeto uma chacota, uma afronta moral. Não era arte, este foi o parecer dado. O que Duchamp havia feito para merecer aquilo? Além de desafiar o ego dos artistas do momento e de colocar-se algumas décadas à frente, Duchamp fez algo que não havia sido feito até o momento: converter um objeto industrial, utilitário, em uma coisa. Mas o que é uma coisa? Uma coisa é algo indeterminado. É muito comum a frase: Que coisa é essa? ou também "Passe aquela coisa pra mim". A coisa é o indeterminado, aquele que não tem nome, aquele que não se sabe o que é. O que não tem nome, dá medo, e o que dá medo se recusa. Duchamp converteu o objeto utilitário em uma coisa, algo que não tem nome nem aparente utilidade. Duchamp fez do objeto cotidiano uma forma de arte e a chamou ready-made. Desde então, a vida dos objetos do mundo industrial, do mundo leigo, tem a possibilidade de rebelar-se, de saltar dali, de onde esses objetos viram coisas indeterminadas, perigosas e ao mesmo tempo belas; o sublime está muito perto do horror e da destruição. Lembremos também que o Conde de Lautréamont, precursor dos conceitos de arte e da poesia das vanguardas, falou da beleza, dizendo o seguinte: "Belo como o encontro de uma máquina de costura com um guarda-chuvas sobre uma mesa de dissecação".

Nesta quarta-feira, dia 14, os objetos se rebelam, passam de ser aquilo para o que nos servem, úteis ferramentas do dia a dia, para coisas com vida, que nos revelam obscuras realidades, obscuros espelhos de nós mesmos.


 

Começamos com Reflexões de um Liquidificador (2010), comédia brasileira de humor negro dirigida por André Klotzel. Aqui, um liquidificador ganha voz e se transforma no melhor amigo de uma mulher chamada Elvira. Este melhor amigo, liquidificador mortal, adverte Elvira que o marido dela tem uma amante. Reflexões de um Liquidificador, uma comédia cruel e afiada com as lâminas desse aparelho que fala e acusa.


 

 

E seguimos com Pneu (Rubber, 2010), de Quentin Dupieux: a história de um pneu, simplesmente um pneu que se chama Robert e que descobre que tem poderes paranormais. Com eles, com os poderes paranormais, Robert começará, tal qual um serial killer, a matar gente na imensidão de uma solitária estrada. Trata-se, como se vê, de uma das comédias de terror mais originais dos últimos tempos.

Já sabe, nesta quarta-feira, 14 de dezembro, chega no Max a rebelião dos objetos. Não perca!

Cinema na Catalúnia, ou os lugares levados para dentro

por max 9. dezembro 2011 07:49

 

Contar sobre um mundo, uma região, um lugar. Porque se nasceu ali, porque se vive ali, porque se sente que o que está ali pode ser de significado universal. Este mês, o Max traz dois filmes que transcorrem e, de alguma forma, falam sobre lugares, sobre a humanidade dos lugares. Porque os lugares têm sua forma particular de ser, temperamento, alma. Sua situação geográfica, seu clima, seu crescimento urbano, sua história o determinam; inclusive determinam o tipo de pessoas que nesse lugar nascem, vivem ou vão viver. Esses lugares, porém, podem ser tão complexos como o olhar que quer entendê-los, opostos, díspares, extremos. O que um vê não é o que o outro vê, a relação desta pessoa com aquele lugar não é idêntica à sua. É assim: um lugar é como uma pessoa. Desfrutamos, sofremos, amamos, odiamos o lugar. O lugar é o outro e é você também. Suas relações com o mundo te definem, te descrevem. Diga-me com quem andas e te direi quem és, diga-me o que comes e te direi quem és, diga-me o que vestes e te direi quem és, diga-me onde vives e te direi quem és.

Este mês, o Max escolheu uma pequena mostra de dois filmes que nos apresentam o cinema feito na Catalúnia. E vale ressaltar: trata-se do cinema na Catalúnia, e não da Catalúnia, porque um dos dois filmes foi dirigido por um mexicano de renome internacional, Alejandro González Iñárritu, e o outro, por Agustí Villaronga, que viveu quase toda sua vida em Barcelona, mas é de Mallorca. Porque é assim, os lugares existem nas almas portáteis. As pessoas levam esses lugares dentro delas e se apropriam desses lugares.

As duas datas e os dois filmes que o Max apresenta, este mês, dentro do especial Cinema na Catalúnia são:

 

 

 

Domingo, dia 11 de novembro, Biutiful (2010): Quarto longa-metragem do mexicano Alejandro González Iñárritu, desta vez sem o diretor Guillermo Arriaga, com quem González Iñárritu teve um conflito já superado, no qual Arriaga argumentava que era tão autor dos filmes como aquele diretor. Mas deixando pra lá esse "diz-que-diz", o certo é que González Iñárritu trabalha aqui com dois roteiristas diferentes e nos apresenta uma obra sem saltos lineares (como costuma fazer Arriaga em seus trabalhos de direção), mas não menos complexa em seus enfoques. O cineasta mexicano volta a trabalhar com um de seus temas prediletos: o mundo contemporâneo e a multipolaridade. Neste caso, estamos em Barcelona, um lugar de encontro de múltiplas raças e culturas. Mas não pelo turismo, não pela fascinação da cidade; o que González Iñárritu faz é centrar-se na vida que está do outro lado da tela, ali no bairro de Santa Coloma, onde, por exemplo, chineses, senegaleses e catalães fazem negócios ilegais e onde a miséria e a ambição unem a todos por igual. No meio disso tudo, aparece Uxbal, interpretado magistralmente por Javier Bardem, que é, sem dúvida, um dos atores mais completos da atualidade. Bardem sabe dar a Uxbal uma humanidade comovente. Não me resta dúvida que nas mãos de outro ator menos dotado, este personagem poderia ficar um fiasco de excepcionais inverossimilhanças: Uxbal tem câncer, lhe deram poucos meses de vida, é amargurado, é cruel e delinquente; mas, ao mesmo tempo, tem dignidade, valor, beleza e, além disso, possui poderes sobrenaturais, porque pode falar com os mortos. Há, sem dúvida, algo de mexicano em Uxbal. Seu nome nos remete, sem quebrar muito a cabeça, ao antigo mundo maia, assim como essa capacidade para falar com os mortos, que também se relaciona ao famoso realismo fantástico latino-americano. Não sei se a direção estava focada originalmente para um ator mexicano. Talvez a história poderia ocorrer em qualquer lugar dos Estados Unidos com forte presença de imigrantes mexicanos. Mas acredito que isto não importa muito: acho que a intenção de González Iñárritu foi precisamente mostrar uma vez mais como o mundo inteiro é uma gigantesca e atroz Babel. A alma de Uxbal é inteiramente uma Babel. Paradoxalmente, o que se apresenta como multipolar acaba sendo absolutamente local. É o mesmo que dizer que os homens são iguais em todas as partes, porque nossa contemporaneidade é uma grande plateia onde todos estão conectados. Os sentimentos universais são sentimentos locais, sentimentos de todos. O drama e a tragédia são iguais para todos. A morte sempre estará ali (o câncer de Uxbal), a morte que nos coloca a todos aos seus pés. Mas a morte também nos tira aquilo que irmana a todos, lá no fundo: a necessidade do bem, a necessidade de transcender, deixando algo de valor.

Biutiful, de Alejandro González Iñárritu, no domingo, 11 de dezembro.

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Segunda-feira, dia 12 de novembro, Pão Preto (2010): Agustí Villaronga constrói uma história baseada em um romance e alguns relatos do escritor Emilli Texidor. Villaronga (Prisão de Cristal, El Niño de la Luna, El Crimen del Cine Oriente, O Mar, Aro Tolbukhin: en la Mente del Asesino) não é um diretor de histórias fáceis, ele sempre exerceu a função de franco-atirador do sistema e se move entre gêneros, usando como uma constante as obscuridades da alma humana. Com Pão Preto, ficamos diante de outro de seus filmes de perfil obscuro, que nos remete à história de crescimento juvenil. A trama do filme gira em torno da iniciação da vida, da perda da inocência, mas a partir de uma perspectiva completamente diferente, o que faz também particular a visão super-explorada no cinema espanhol sobre o tema e o cenário do pós-guerra. Villaronga se aproxima de tudo isto com a visão, com sua visão, onde a mentira e a corrupção dos ideais se convertem no pivô fundamental que determinará a personalidade do jovem Andreu. O contraste de seu mundo mágico e infantil choca-se com uma dura realidade que fica, às vezes, não menos inacreditável que o próprio mundo de Andreu, mas no sentido negativo. O mundo adulto do pós-guerra lembra-me um quadro de Bosco, a face horrorosa de um mundo mágico que, como já assinalei, não é mágico, mas sim horrivelmente verdadeiro. Neste sentido, Pão Negro está na linha de O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro, mas sem o desdobramento dos efeitos especiais. Em Pão Negro não existe um mundo paralelo nem maravilhoso, mas sim uma realidade cheia de mentiras, mortes e dor que vai esmagando a bolha espiritual da inocência. Crescer em meio aos estragos da guerra pode ser terrível.

Pão negro, nesta segunda-feira, 12 de dezembro, no Max.

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Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão ou Zhang Yimou e os Coen foram à ópera chinesa

por max 9. dezembro 2011 07:13

 

Estamos já familiarizados com o costume ocidental -hollywoodiano- de adaptar filmes asiáticos para o público do mundo todo. Porém, o diretor Zhang Yimou (ou Yimou Zhang, como preferir) realiza com Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão (A Woman, A Gun and a Noodle Shop, 2010) o processo inverso, e chama sua versão asiática de Gosto de Sangue (Blood Simple, 1984), primeiro e genial filme dos irmãos Ethan e Joel Coen. Zhang Yimou declarou que é fã do cinema feito pelos Coen, e que, desde a primeira vez que viu Gosto de Sangue, ficou profundamente admirado e pensou em fazer uma adaptação. Sempre teve a ideia em mente, até que um dia se propôs realizá-la, mas com uma variante: ambientar a história em um momento histórico que permitisse ao cineasta tomar elementos da ópera de Pequim, ou da ópera chinesa, de ambientação sempre histórica e cuja estrutura fundamental tem raízes na mescla das artes marciais com a tragédia e a comédia. Aqui, com estes dois últimos elementos citados, Zhang Yimou pode ver enormes coincidências com o primeiro filme dos irmãos Coen, onde também a comédia e a tragédia se fundem para formar uma peça estranha e fascinante. Sim, comédia e tragédia também estão em Gosto de Sangue, e o mesmo acontece na ópera chinesa. O laço estava estabelecido e Zhang Yimou se permitiu não somente uma versão, mas também uma fusão, dizendo que a vida é uma tragicomédia em tudo. Esta fusão operística permitiu ao cineasta também o desdobramento cinematográfico e cênico. Bem sabemos que Zhang Yimou dirigiu filmes muito simples como Nenhum a Menos (No One Less, 1999), mas que é mais conhecido por espetáculos visuais como Herói (Hero, 2002), O Clã das Adagas Voadoras (House of the Flying Daggers, 2004) ou A Maldição da Flor Dourada (Curse of the Golden Flower, 2006). Yimou se iniciou como diretor de fotografia e, desde então, seu gosto pela luz e pelo cenário não diminuiu. De fato, foi o diretor principal da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim em 2008. Em Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão os cenários, a encenação, a arte estão ali; em menor medida que em seus filmes mais grandiosos, sim, devo dizer, mas estão. O deserto, os céus, os planos gerais, os closes, alguns momentos de câmera lenta nos falam do virtuosismo do diretor que, sem dúvida, se concentra em criar uma adaptação cheia de silêncios, detalhada, tensa, uma forma de respeitosa homenagem aos Coen; se bem que as variantes da ópera chinesa apontam um ou outro elemento distinto, como a presença dos cômicos de estilo ch´ou, neste caso cômicos wuch´ou, que são malabaristas. Talvez a inclusão desse tipo de cômico tenha sido menos compreendida pelo público ocidental. A comicidade que aqui está representada é gestual, boba, medonha (muito asiática), o que não deixa de ter sentido, pois os personagens do filme se movem em um universo cheio de superficialidade, ignorância e paixões baixas. São seres feios como feias são suas almas, seres dominados pelo destino clichê daqueles que vivem no barro da ambição, da avareza, do sexo, da intolerância, do ódio e inclusive do medo e do perigo que assedia.

Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão, segundo filme que o Max nos traz neste mês de dezembro dentro do ciclo Sensos de Humor. Delicie-se com ele, nesta sexta-feira, 9 de dezembro.

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Je L´aimais, dois homens, um mesmo homem, um só amor

por max 6. dezembro 2011 09:54

 

Je L´aimais (2009), da diretora e atriz Zabou Breitman, é basicamente a história de dois homens. Um presente e outro ausente. Ainda que, no fundo, seja a mesma história de um homem, espelhada. Pierre (Daniel Auteuil) tem à frente dele sua nora Chloe (Florence Loiret Caille), mas na realidade ela não é ela, mas sim a história dele, sua própria história com uma variante, com uma decisão que Pierre não quis tomar. Sua nora acaba de ser abandonada pelo filho de Pierre (o outro homem ausente desta história, alter ego de Pierre) que partiu com sua amante. Diante deste fato, Pierre começa a contar um segredo, uma vida secreta, um amor secreto. Há 20 anos, ele se apaixonou por outra mulher, Mathilde (Marie-Josée Croze). Casado, com dois filhos, com estabilidade burguesa, Pierre mergulha em um romance onde a mulher acaba tornando-se o que ele chama de amor de sua vida. Porém, ao contrário do seu filho no tempo presente do filme, Pierre não dá o passo final. À época, ele ficou com medo de perder o que tinha e o que tem: casa, carro, conforto. Não quis decair social e financeiramente, preferiu a ruína da alma. Agora, muitos anos depois, conta esta história com sua voz e seus olhos tristes, mostra a si mesmo como produto de um fracasso. Não sabemos se Chloe entende ou não, não sabemos se está disposta a compreender as razões do parceiro, o filho de Pierre; o importante é que Pierre se libertou, e deixou entrever complexos dilemas de sua vida. Em uma sociedade onde se idealiza o amor, o que de tão catastrófico pode acontecer ao decidir-se, especificamente, pelo amor? Pode-se querer (apaixonar-se por) duas pessoas ao mesmo tempo? Se, da vida, o mais importante é vivê-la, então por que muitos andam mortos no casamento e só despertam, sentem-se realmente vivos, quando o romance se aproxima deles? E onde fica então o parceiro do casamento, aquela pessoa que talvez se continue amando, e que talvez já nem se ame tanto, mas que, da mesma forma, não se quer perder o que tem? Como todo bom filme, Zabou Breitman nos deixa mais perguntas do que respostas; nos deixa inquietudes, nos confronta, apresenta o confronto com esse outro que somos, com esse outro que somos nós mesmos. Por isso, disse no princípio que Je L´aimais é a história de dois homens; não somente do filho ausente e do pai derrotado, mas também do homem que amou e foi feliz aos pedaços e do mesmo homem que ainda ama mas que não se atreveu a viver plenamente.

Je L´aimais, nesta quarta-feira, 7 de dezembro, no Max.

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