Monty Python: Quase a Verdade, ou, o melhor da comédia britânica num documentário

por max 29. outubro 2011 03:14

 

O riso sempre tem sido um problema. O humor, como parte desses mecanismos do riso, também. Baudelaire, no seu ensaio Da essência do riso, faz uma revisão das considerações do riso na cristandade, e nos diz o seguinte: «o riso humano está intimamente ligado ao acidente de uma antiga queda, de uma degradação física e moral.» Vemos aqui o riso unido ao pecado, ao demônio, surgido logo depois da tentação.

No Paraíso que ainda não conhece a mordida da maçã, diz Baudelaire, a alegria não se expressava com o riso, o riso não deformava os rostos. Para a Idade Média o rosto deforme é demoníaco, a beleza é celestial. E claro, o riso deforma o rosto angélica, faz que o corpo se estremeça, e corpo estremecido é corpo possesso.

Lembremo-nos de O nome da rosa de Umberto Eco. Todos os assassinatos que acontecem naquele monastério são consequência de um livro envenenado a propósito pelo monge Jorge de Burgos. Por quê o monge tem envenenado as páginas desse livro (da língua ao dedo que mexe com a folha) com a única finalidade de conseguir a morte de qualquer um que queira lê-lo? Pois porque é um livro escrito por Aristóteles que se trata sobre o riso. Sim, o riso não resultava somente diabólico pela sua relação com a deformidade, senão também porque o riso denotava superioridade, e ninguém, ninguém no Reino do Senhor, podia se sentir superior. Diz Baudelaire: «O riso provém da ideia de superioridade». Essa mesma ideia será utilizada por Hobbes no seu Leviatã. O riso é produto do orgulho e da aberração, como orgulhoso e aberrado é o Satã. Mas também, devemos estar conscientes, o chamado ao pecado é uma expressão de liberdade. Eva se atreveu a contradizer o mandato de Deus, Eva disse não, e ao dizer não, elegeu, foi livre. Eva mordeu a maçã, deixou de ser uma boba feliz que não conseguia pensar, que não se atrevia a contradizer um mandato único: com a mordida da maçã nasce a liberdade e a inteligência. O humor também nasce quando o homem deixa de ser um borrego, nasce da inteligência. O humor, isto sim, é algo mais do que o simples riso. O humor é essa operação do espírito que atua sobre a realidade, que a percebe nas suas misérias, e a devolve convertida numa crítica mordas, num desembaraço, num discurso carregado de inteligência e dobles sentidos.

O humor é ataque e é crítica. O humor não sente piedade por nada. Arremete contra todos, mas principalmente ao poder. Com o poder político, com o poder social, com o poder eclesiástico, com o poder do espetáculo, com as normas instauradas, com os medos (o medo é um poder que domina) e com a língua (o poder do Estado). Por causa disso, o humor se entretém no jogo de palavras e torce o idioma. Por isso, a través do absurdo, a tolice e o surrealismo, o humor parodia e satiriza os poderes. A sua é uma lógica diferente que pretende dominar o mundo.

Uma das culturas que se da melhora com o humor, já disse em outro texto, é a britânica. A galera dos Monty Python, possivelmente o mais famoso dos grupos de humor em língua inglesa, nasceram oficialmente em outurbo de 1969, quando apareceram ao ar na BBC com um programa que tinha o nome de Monty Python Flying Circus (embora já vinhesem trabalhando juntos fazia alguns anos). O elenco estava conformado pelos comediantes John Cleese, Terry Jones, Terry Gilliam, Eric Idle, Michael Palin e Graham Chapman. Deles os dois únicos que não eram ingleses eram Terry Gilliam que era americano e Terry Jones que era galés. Por separado, Gilliam foi principalmente o desenhista do grupo (suas ilustrações para os Python são um clássico), mas também atuava copiosamente. Mas adiante, como já todos sabemos, se convertiria num diretor de culto com filmes como Brazil, Twelve Monkeys, e há pouco tempo atrás The Imaginarium of Doctor Parnassus.

Os Python, por sorte, tinham licença para fazer o que quisessem no seu show da BBC, constituído basicamente por pequenas cenas, ligadas umas com outras, pelo general, pelas ilustrações de Gilliam. Essa liberdade conseguiu fazer obras maestras de humor, cheias de absurdo, sátira, ironia e muita imaginação.

Além disso fizeram teatro, realizaram discos e libros, e em 1974 o seu primeiro filme: Monty Python and the Holy Grial, à que sucederiam Monty Python´s Life of Brian em 1979, Monty Python Live at Hollywood Bowl em 1982 y Monty Python´s The Meaning of Life em 1983. De onde provem esse nome tão particular? Pois cada um dos Python tem uma versão diferente, embora sempre concordem mais ou menos na mesma coisa. O negócio de «Flying Circus» apareceu como imposição dos executivos da BBC que proporão aquela frase horrorizados com títulos tão delirantes como The Toad Elevating Moment (que significa mais ou menos O momento da elevação do sapo), ou A Horse, a Spoon and a Basin (parecido a Um cavalo, uma colher e uma vasilha). O Python, aparentemente, surgiu de Cleese, que gostava de usar nomes de animais como recurso humorístico. E Monty porque todos achavam que parecia como o nome de alguém canhoto, desalinhado, simpático pela sua lerdeza. Então a BBC deu de si, o grupo também, e daí surgiu o nome.

Mas se voce quer saber mais, Max te convida a desfrutar Monty Python: Quase a Verdade (2009), um documentário produzido pela IFC (Independent Film Channel) na celebração dos 40 anos da primeira transmissão do Monty Python's Flying Circus. Originalmente o que esteve no ar tinha seis longas partes, logo se reduziu a uma hora para poder ser distribuído em outros canais de televisão. É um recorrido à historia do grupo, aos começos de cada um dos Python no gênero do humor, até o seu último filme. Entrevistas com Michael Palin, John Cleese, Eric Idle, Terry Jones e Terry Gilliam, e outros amigos e fanáticos célebres, vai estruturando o complexo caminho do grupo. Os segredos, o amor pelo trabalho (eles não faziam mais do que trabalhar e quase não tinham vida privada), a morte de Chapman em 1989, seus problemas com o álcool.

Monty Python: Quase a Verdade é um trabalho da altura dos seus homenageados, divertido e comovedor, que nos apresenta o funcionamento interno do grupo e também nos faz uma clara panorâmica da sua importância, do seu legado.

Monty Python: Quase a Verdade, neste domingo 30 de outubro, por Max.

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O Castelo No Céu, ou a destruição das utopias de Miyazaki

por max 26. outubro 2011 15:27

 

Já dissemos, em outra oportunidade, que Hayao Miyazaki é um fã da aerodinâmica, ou melhor, um amante dos céus. Sua imaginação, sem dúvida, voa alto. Um dos filmes que mais reflete sua paixão pelas alturas é O Castelo No Céu (Tenkü no Shiro Rapyuta, 1986), outra das animações que você poderá assistir este mês, dentro do ciclo dedicado a Hayao Miyazaki. Escrito e dirigido por ele, O Castelo No Céu mostra um mundo totalmente montado no ar, ou melhor, desmontando-se no ar, pois o filme é ambientado em uma época posterior à destruição das cidades e dos castelos que a civilização chegou a erguer em algum momento, neste mundo imaginado por Miyazaki. Poderíamos dizer que estamos diante de um filme não pós-apocalíptico, mas sim pós-utópico; um filme que se passa logo após a maravilha. Trata-se de uma espécie de advertência, como se Miyazaki estivesse dizendo para nós: cuidado com o ser humano, que, depois que alcança a utopia, pode ser tão bestial a ponto de destruí-la. O homem, por assim dizer, sempre desejou ir além da terra que pisa, alcançar o céu, esse lugar das utopias, por excelência. Estas cidades no céu que Miyazaki nos mostra são uma metáfora do sonho, da capacidade do homem de imaginar mundos melhores. Mas, ao mesmo tempo, essas mesmas cidades já destruídas fazem referência ao homem como um depredador insuperável. No filme, partimos de um momento pós-utópico que vai de encontro a uma nova utopia. É o mesmo que dizer que, diante dessa destruição das utopias, o espírito humano gerou uma nova utopia. Nesse caso, trata-se de um lugar místico, onde a magia e a tecnologia se fundem. Ao final, fica a pergunta: qual é a nossa utopia contemporânea? Exatamente a de um lugar onde o tecnológico e o espiritual se fundem para elevar o homem ao estado máximo de felicidade. A antiga cidade de Laputa, sobrevivente da destruição à qual nos apresenta o cineasta do início ao fim deste filme, é um resíduo da utopia destruída, que se converte, a seu tempo, em um mito e, certamente, na nova utopia do fim das utopias realizadas. Mas Laputa é um lugar que existe de verdade, e como tal, é uma cidade buscada fisicamente, com amor, mas também com ambição e malícia. Com certeza, a ambição pode mais, e o destino de Laputa não será o certo, mas de alguma maneira fez com que Miyazaki tivesse fechado esse círculo: se você se aproxima da utopia a partir da loucura racional, então você a destruirá; essa poderia parecer a conclusão, a profunda mensagem do cineasta. É surpreendente pensar que este filme magnífico e cheio de detalhes foi todo desenhado à mão e seja destinado às crianças, e que, em essência, vai muito além de uma simples aventura.

O Castelo No Céu, este mês, dentro do ciclo de Hayao Myazaki, no Max.

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Nesta semana, o ciclo dedicado a Hayao Miyazaki continua…

por max 25. outubro 2011 06:56

 

Os filmes para esta terça e quarta-feira são:

Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar (Gake no ue no Ponyo, 2008): Num mundo estremecido por um mar enfurecido por causa da contaminação, um peixinho consegue escapar das profundezas e transforma-se numa menininha que sobe à superfície e faz amizade com um menino sonhador. Escrito, produzido e dirigido por Hayao Miyazaki, este filme, segundo o que ele mesmo conta, obteve sua inspiração inicial do conto "A Pequena Sereia" de Hans Christian Andersen, como também da ópera de Wagner "A Valquíria" (Die Walküre). O filme gira em torno do tema da contaminação dos mares, e, porque não, do voo. E digo voo porque muitas dessas imagens marinhas, das profundezas do mar, nos fazem pensar nos passeios aéreos que tanto apaixonam Miyazaki. Aliás, para continuar com o tema das obsessões do cineasta, saibam que o artista se encarregou, pessoalmente, sem ajuda de ninguém, de criar os movimentos das ondas no filme. Qualquer coisa? Não é, não. O filme transcorre numa cidade litorânea, e a presença das ondas, mais do que constante, é onipresente.

Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar, nesta terça-feira, 25 de outubro.

 

 

Sussurros do Coração (Mimi wo Sumaseba, 1995): Um dos últimos filmes dirigidos por Yoshifumi Kondō, que morreu em 1998 por causa de um aneurisma. Nesses últimos anos, Kondō trabalhou exclusivamente para os estúdios Ghibli. O roteiro é do mestre Miyazaki, que também dirigiu as cenas das paisagens, realizadas pelo pintor surrealista japonês Naohisa Inoue. Inoue, desenhista gráfico, ilustrador e artista plástico, é muito conhecido por ter criado o mundo fantástico de Iblard. Inoue foi sempre um grande fã de Miyazaki e, obviamente, não hesitou em trabalhar com ele quando convidado. Aliás, algumas das pinturas das paisagens de Iblard foram usadas no filme.

Sussurros do Coração narra uma história fundamentada na realidade, mas cheia de voos pela fantasia. Trata-se de uma peça delicada, uma pequena história do afeto entre dois jovens que acabam compreendendo que o amor não é somente maravilhoso, mas também nos ajuda a ser melhores como pessoas, a superar-nos na vida. Claro, quando é amor verdadeiro, quando não é um amor egoísta. No filme, há ideias, momentos e situações realmente cheias de sensibilidade e fantasia. As maneiras como Shizuku e Seiji se conhecem é terna, misteriosa e cheia de picardia. O começo da conquista e o encontro acontecem através dos livros, pois cada livro que Shizuku lê na biblioteca é procurado logo depois por Seiji. Essa estranha coincidência faz que Shizuku comece a sentir curiosidade pelo misterioso menino que, inicialmente, parece estar pegando por coincidência as mesmas obras que ela. Se esta pequena história não é uma obra-prima da imaginação, não sei que outra coisa poderia sê-lo.

Sussurros do Coração, nesta quarta-feira, 26 de outubro, no Max.

Outubro, ou o prestamista e os milagres

por max 25. outubro 2011 06:53

 

Há filmes pequenos, discretos, minimalistas, que acabam fazendo grandes milagres. Assim é Outubro (Octubre, 2010), filme peruano, estreia de Daniel e Diego Vega Vidal na direção, que obteve o Prêmio do Júri Un certain regard no festival de Cannes. Os irmãos Vega nos levam para Lima, durante outubro, que é justamente o mês dedicado ao tradicional Señor de los Milagros, e a partir desse fato fazem uma alegoria sobre a transformação de um homem, dono de uma loja de penhores, morto por dentro. Embora o realismo e o enfoque nos costumes típicos regionais sejam a base do relato, a ironia, o humor suave e a expressão mínima funcionam como elementos contemporâneos de transformação para mostrar uma alma que era, ao começo, vazia e insensível. Uma alma que, desde a aparição de uma recém-nascida, vai se transformando no decorrer de sua vivência. O cotidiano e o universal, o particular e o social vão se tecendo nesse fio de crescimento humano que chamou a atenção em Cannes. O personagem de Clemente (Bruno Odar) se vê, um dia, como pai de uma menina nascida de suas relações com uma prostituta, La Cajamarquina, como é chamada. Mas a Cajamarquina sumiu e deixou a menina com ele. Esquivo, solitário, especulador, Clemente não sabe muito bem o que fazer. É nesse caminho da incerteza, do novo, onde os irmãos Vega Vidal se envolvem, e fazem isso com elegância, silêncios e câmeras sóbrias. Assim, um personagem que ao começo poderíamos achar detestável, torna-se simpático e comovente, pois os cineastas conseguem fazer com que achemos graça dos seus infortúnios, das suas antipatias, e da sua teimosia frente às mudanças. No caminho de Clemente aparecem outros personagens: Sofia, uma devota do Señor de los Milagros, interpretada por Gabriela Velásquez, e o velho Don Fico, interpretado por Carlos Gasols. Eles acompanharão Clemente em sua viagem, sua transformação, e também mostrarão suas dores e pequenas alegrias. No final, fica para nós a transformação; só não sabemos se também o milagre.

Outubro, nesta terça-feira 25 de outubro, no Max.

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Bunny e o Touro, o melhor do humor britânico

por max 24. outubro 2011 05:42

 

Os ingleses são especialistas em humor. E, quando digo humor, não estou falando de piadinha barata, que simplesmente faz rir. Entendo o humor como uma operação intelectual profunda, que percebe a realidade para criticá-la, para assinalar com uma "aparente" leveza ou com uma intensa crueldade que possa levar as pessoas do riso ao sorriso. O humor não é qualquer coisa, ele nos ajuda a ser perseverante no mundo. Os ingleses sempre souberam criar um excelente humor. Transcrevo para vocês uma pequena relação de autores ingleses feita por Oscar Sacristán na introdução ao Con la risa en los huesos (Com o riso nos ossos), magnífica antologia de humor do Clube Diógenes Valdemar: «a sátira corrosiva de Thomas De Quincey, o disparate de Lewis Carroll, as situações cômicas de Saki, e até mesmo o humor negro herdeiro da tradição gótica de Walpole ou Swift.» O humor britânico é, sem dúvida, muito variado, mas tem sido, desde sempre, extremo, duro, intelectual e impiedoso. O humor britânico gosta do absurdo, dessas situações existenciais próximas do ridículo e que mostram a tolice da vida. Desse lado do absurdo, o humor britânico também tem se situado muito perto do surrealismo, desse mundo dos sonhos que mora acima da realidade ou, talvez, por debaixo dela, com leis próprias, com suas próprias imagens delirantes, mas sempre ligadas à realidade, com os desejos reprimidos, referindo-nos a Freud. Esses desejos reprimidos, quando aparecem na superfície, batem com a realidade, e digamos que, de algum jeito, desmascaram as leis, ridículas, pretensiosas e inclusive tirânicas que governam a vida dos homens.

Falar de humor britânico não é somente lembrar a Literatura. As referências cinematográficas e televisivas também estão próximas. Claro que não podemos deixar de lado a turma do Monty Python, dos anos sessenta e setenta, e mais recentemente programas como The Mighty Boosh, série quase que totalmente por conta de Paul King, cineasta que trabalha estreitamente com o humor e que estreou no cinema, em 2009, com o filme Bunny e o Touro (Bunny and the Bull).

Bunny e o Touro é um road movie sem estrada, pelo menos de forma explícita. Uma história feita de lembranças, ou mais do que lembranças, de alucinações em torno de uma viagem de dois amigos que saem por aí, por causa de uma desilusão amorosa e um golpe de sorte. Nesta viagem (não sabemos se verdadeira, ou, como já dissemos, psicodélica), irão aparecendo várias situações e personagens insólitos que são o espelho bizarro da realidade, e que além de mostrar-nos situações cômicas, expõem o drama humano do amor, da amizade e da solidão.

Bunny e o Touro, este mês, no Max.

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Escreva sua resenha sobre OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES e concorra.

por max 20. outubro 2011 12:09

 

 

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Mais dois filmes no ciclo dedicado a Hayao Miyazaki

por max 20. outubro 2011 10:46

 

O Serviço de Entregas de Kiki (Majo no Takkyübin, 1996). Trata-se de um filme que mostra duas peculiaridades da personalidade de Hayao Miyazaki. Em primeiro lugar, nos apresenta a sua paixão pelo voo, diversão que possivelmente descobriu por causa do seu pai, antigo diretor de uma companhia que fabricava partes dos famosos aviões de guerra japoneses chamada Zero. É conhecido o fato de Miyazaki, desde moço, ter utilizado máquinas voadoras em suas ilustrações. Nos anos setenta, já sentia uma idolatria particular pelos aviões antigos e, com o passar dos tempo, esse amor foi se mantendo.

Em O Serviço de Entregas de Kiki, o cineasta se deixa levar pela maravilha do ar e nos oferece momentos fascinantes, cheios de beleza. Miyazaki teve o melhor pretexto de todos: Kiki é uma bruxinha que usa uma vassoura voadora, por aí afora. É possível que o amor do cineasta pelo voo tenha levado-o a se entregar profundamente ao projeto de Kiki porque, no começo, Miyazaki não ia participar do filme, mas acabou sendo o roteirista, produtor e diretor. Em 1987, a editora da escritora Eiko Kadono licenciou a história para que o Studio Ghibli levasse ao cinema seu romance para meninos e jovens: O Serviço de Entregas de Kiki.

Naquele momento, Miyazaki estava completamente dedicado ao filme de Totoro e, o seu primeiro parceiro –Takahata– também se encontrava ocupado com Grave of the Fireflies. Então, começaram a procurar possíveis candidatos para o roteiro e a direção. Porém, quando aparece o primeiro roteiro, escrito por Nobuyuki Isshiki, ele acaba rejeitado por Miyazaki que considera que o texto não era compatível com sua visão. Depois de ter recusado outras opções em roteiro, Miyazaki acabou escrevendo o texto e entregou-se à produção e aos desenhos dos primeiros esboços. Tanto se envolveu no projeto que o diretor contratado originalmente, Sunao Katabuchi, pediu demissão, completamente intimidade pela intervenção do mestre. Foi assim que um filme, que ia ser originalmente de 60 minutos, acabou se prolongando e ficando em 102, tudo isso graças à intervenção apaixonada de Hayao. Isto nos diz muito, sem dúvida, sobre sua personalidade. Aquele que é admirado por ser um mestre em alguma arte – e que ele realmente é – não sai por aí, com um sorriso de orelha a orelha, enchendo os demais de amabilidades e condescendências.

Miyazaki é um autor obsessivo, muito exigente no trabalho. Ele exige de si mesmo e da sua equipe, faz tudo para que a obra fique impecável. Muito bonitinho o vovô sim, mas, sem dúvida, ele está totalmente apaixonado pela sua arte. Sabe-se, por exemplo, que para fazer A Princesa Mononoke, Miyazaki passou intensas horas sem fim, desenvolvendo esboços e desenhos e acabou por lesionar a mão. Outro exemplo? Como a história original de Kadono acontece em um povoado europeu, Miyazaki enviou seus desenhistas para várias cidades da Europa, para que realizassem uma pesquisa exaustiva. Na sua impressionante mania de perfeição, o cineasta foi modificando a história, na medida em que ia aprendendo mais sobre as diferentes cidades do Velho Continente. Finalmente, Koriko ou Coriko (nunca se diz o seu nome no filme, embora Ghibli falasse dela em várias notas de imprensa) acabaria sendo uma cidade imaginária, traçada à perfeição, com evidentes alusões a Estocolmo, Munique e principalmente Visby, na Suécia.

O Serviço de Entregas de Kiki, nesta quinta-feira, 20 de outubro.


 

 

Porco Rosso (Kurenai no buta, 1992). E, ao citarmos o amor de Miyazaki pelo voo, temos que citar este filme, que gira em torno dos temas ar e aviões antigos. No período entre as duas guerras mundiais, especificamente em 1929, esta produção é protagonizada por um porco. Sim, um porco (essa figura é outra das fascinações de Miyazaki). De fato, Porco Rosso é um dos poucos filmes do diretor, no qual a protagonista não é uma garota; desta vez, trata-se de um homem... bem, de um porco, na verdade. Um porque que, deve-se ressaltar, antes foi humano e se chamada Marco Pagot. Pagot, aliás, é o sobrenome dos famosos ilustradores italianos que criaram o pintinho Calimero.

Embora, para que seja feita justiça e voltando ao tema do protagonismo feminino, o filme tem uma mecânica de aviões, chamada Fio, como importante personagem. Porco Rosso, o porco (na dublagem brasileira é conhecido como Marco Porcelino ou Marco Porquinho), é um caçador de recompensas, sempre pronto a evitar que os piratas do ar se deem bem; estes, já fartos do herói, contratam outro piloto – o norte-americano Donald Curtis - para acabar com o protagonista.

Trata-se de uma aventura que, usando como pano de fundo os assuntos da aviação, lança uma mensagem antibelicista mais do que óbvia. Originalmente, Porco Rosso nasceu como curta-metragem, para ser exibido nos aviões da Japan Airlines, mas, claro, nas mãos do obsessivo Miyazaki, tornou-se um projeto maior. O tema dos aviões era muito tentador para deixá-lo em um curta. Além disso, justamente na época de sua produção, estava acontecendo a guerra da Iugoslávia. A Croácia lutava pela sua independência e Miyzaki sentiu que não podia fazer do assunto bélico uma diversão para entreter passageiros. Embora o projeto saísse do que estava acordado em contrato, a Japan Airlines confiou na fama e na genialidade do mestre e acabou financiando o filme. Mais uma vez, aviões e obsessões acabam transformando um filme de Miyazaki em uma verdadeira obra-prima.

Porco Rosso, nesta sexta-feira, 21 de outubro, no Max.

Três filmes de Miyazaki que assistirás em breve

por max 6. outubro 2011 16:03

 

A Princesa Mononoke (Mononokehime, 1997): Já em 1997 Hayao Miyazaki tinha demonstrado que os seus filmes eram de uma qualidade altíssima e que conseguiam competir nos mercados ocidentais. Não é por acaso que em 1996, um ano antes do estreio da A Princesa Mononoke, os estúdios Disney assinaram um contrato de distribuição com Takuma Shoten Publishing, a companhia encarregada de comercializar os filmes do Studio Ghibli, que pertencia, obviamente, ao Miyazaki. Foi assim que A Princesa Mononoke fez a sua première internacional com o selo Disney, e demonstrou, mais uma vez, a capacidade imaginativa, as preocupações ambientas, e, claro, a mestria de Miyazaki. O filme acontece num bosque cheio de espíritos da natureza, deuses bestiais, desconhecidos animais mágicos e guerreiros com um toque medieval.

Na A Princesa Mononoke, como em outros trabalhos de Miyazaki, o homem e a natureza se confrontam e batalham até o fim, com dor, assediados além do mais por uma doença letal parecida à gangrena. O interessante do filme nesse sentido é o nível de complexidade que é apresentado pelo Miyazaki ao tratar esse tema. Não existem os maus nem os bons, tudo parece apontar em direção ao equilíbrio, na procura da expansão da consciência e do compromisso profundo pela preservação do meio ambiente, que é, ao mesmo tempo, a preservação do homem em si mesmo.

A Princesa Mononoke, desfruta dela na segunda-feira 17 de outubro.


 

 

Nausicaa – A Princesa do Vale dos Ventos (Kaze no Tani Nausicaä, 1984): Estamos falando do filme que acabou por fazer de Hayao Miyazaki o estandarte da animação japonesa, e que conseguiu levá-lo ao reconhecimento internacional. Trata-se de uma fábula protagonizada por uma menina que tenta sobreviver num mundo devastado, envenenado e, para rematar, habitado por mortíferos insetos gigantes. Baseado num mangá de 51 episódios desenhado pelo próprio Miyazaki em 1981, o filme teve a Isao Takahata (parceiro do mestre no Studio Ghibli) como produtor e foi o mesmo Miyazaki quem a dirigiu.

Com este filme o cineasta aventura-se por primeira vez nos que depois serão os seus mundos já clássicos: lugares altamente complexos criados por uma imaginação sem limites, sem que esse "afastamento" da realidade separe a história dos temas ecológicos, filosóficos, e até sociais pelos que acostuma a se preocupar. Mundos onde a cobiça torna-se o principal inimigo do homem e da natureza. Internacionalmente, Nausicaa – A Princesa do Vale dos Ventos, conseguiria que o público ocidental entendesse que a animação japonesa tinha outras possibilidades além da inocência com que eram mostrados até então os bonequinhos de grandes olhos. Akira de Katsuhiro Otomo viria quatro anos depois, e ambos filmes, Nausicaä e Akira, ajudariam a estabelecer o começo da moda e o grande prestígio do anime japonês.

Nausicaa – A Princesa do Vale dos Ventos, terça-feira 18 de outubro.


 

 

Pompoko – A Guerra dos Guaxinins (Hesei Tanuki Gassen Pompoko, 1994): Temos um filme dirigido pelo sócio do Miyazaki, o também diretor e animador Isao Takahata. É um filme onde os protagonistas são os tanuki, criaturas do bosque, nascidos do folclore japonês, comparados de modo superficial com guaxinins, mesmo que na realidade sejam mais do que isso, pois os tanuki tem o poder de se transformar em qualquer coisa que desejarem, inclusive em seres humanos.

A ideia é original do Miyazaki, quem a propôs ao diretor Takahata e depois se uniu na realização como produtor. O tema, e tal vez por ter surgido do primeiro, está muito próximo às suas preocupações habituais: a ecologia e a ambição do homem. Dessa vez os tanuki terão que lutar com tudo o que puderem em contra do ser humano, ao descobrirem que o seu hábitat está sendo ameaçado pela pretensão indiscriminada de destruir a natureza para construir estruturas de concreto.

Pompoko – A Guerra dos Guaxinins competiu no mercado internacional com The Lion King da Disney, ficando muito perto nos números da bilheteria. Por causa disso, um par de anos depois, a Disney fará a negociação da que já falamos.

Não percas Pompoko – A Guerra dos Guaxinins, na quarta-feira 19 de outubro, pelo Max.

Em outubro, ciclo de Hayao Miyazaki

por max 6. outubro 2011 15:29

 

Em algum lugar li que Hayao Miyazaki é chamado o Disney japonês. Em certo sentido ele é, pelo seu sucesso, pelo seu nível de mestria. Mas o curioso disso tudo é o fato dele não ter aprendido precisamente da animação ocidental. Osamu Tezuka, conhecido como o Deus do mangá, o famoso criador de Astro Boy, fala que assistiu Bambi umas oitenta vezes e conhecia o filme de memória, quadro a quadro. Igual que para Tezuka, o estilo Disney tem sido objeto de veneração entre os animadores japoneses por muitos anos. Mas o caminho do jovem Miyazaki, quem começava a se apaixonar pela fantasia, se dirigia para um lugar diferente. Achava o Disney muito simples, superficial. Conseguia nesses filmes o ênfase realista, porém pouca emoção, ou, pelo menos, emoções e temas que ele achasse interessantes. O jovem Miyazaki era um garoto bastante inusitado. Estudou em Gokushuin, uma Faculdade de elite no Japão. Lá conseguiu se formar em Ciências Políticas e Econômicas (como o seu pai), mas também recebeu de sua mãe uma educação literária e humanista importante, muito crítica, e foi essa visão a que fez que logo se sentisse atraído pelo pensamento marxista na Faculdade. Também na sua época universitária, Miyazaki se uniu ao grupo de estudos de Literatura Infantil. Imerso nesse mundo de histórias fascinantes da tradição japonesa que faziam voar a sua imaginação, Hayao Miyazaki decidiu o seu caminho. Não seguiria os passos do seu pai, e se tornaria, definitivamente, animador. Assim, em 1963, depois de se formar (nasceu em 1941), começou a trabalhar na Toei Animation. Como muitas pessoas no Japão, começou de zero, ocupando um cargo menor. Mas logo se fez sentir. A televisão daqueles dias tinha tomado um impulso muito forte, mas, ao mesmo tempo, as produções estavam matando a qualidade do que se fazia. O mercado tornou-se mais importante do que fazer alguma coisa boa. E quando a companhia onde Miyazaki trabalhava decidiu receber propostas dos empregados para superar a crise, Miyazaki falou e sobressaiu. O primeiro filme resultado da sua contribuição foi Oji Horus No Daiboken (The Little Norse Prince Valiant). Nestas primeiras produções Miyazaki se preocupa muito pelo tema da qualidade. No entanto outras companhias reduziam o seu orçamento, ele e a sua equipe injetavam dinheiro ao projeto para fazer algo diferente, com maior valor artístico. 1973 começa com ele trabalhando para um novo estúdio chamado A-Pro. Com Miyazaki à cabeça do projeto se unem com Zuiyo Pictures para realizar a primeira série animada do Japão que utilizaria cenários de outros países: estamos falando nada mais e nada menos de Alps no Shojo Heide, ou simplesmente Heidi. No caminho viriam outros filmes, outros trabalhos importantes. No ano de 1985, depois da grande acolhida de Kaze no Tani no Nausicaä (1984), Miyazaki decide fundar junto com Isao Takahata o Studio Ghibli, companhia com a que tem continuado até hoje e que tem feito filmes como Tanari no Totoro (1988), Majo no Takkubien (Kiki´s Delivery Service, 1989), Porco Rosso (1992), Heisei Tanuki Gassen Pompoko (1994), e, obviamente, Sen to Chihiro no kamikakushi (2001), também conhecida como As aventuras do Chihiro, ganhadora do Oscar como Melhor Filme de Animação. Em todos esses filmes, o cineasta tem se caraterizado pelas suas temáticas ecológicas e antibelicistas, e por misturar a tradição japonesa com um elevado mundo de fantasia produzindo mundos extraordinários, cheios de beleza, ternura e magia. Miyazaki é um autor, um mestre da exigência, da arte, da imaginação. Quando a gente assiste um dos seus filmes tem certeza e o diz de imediato: "Esta é do Miyazaki".

Em outubro, Max tem o prazer de apresentar dez (10) filmes de animação onde a influência do grande mestre Miyazaki tem tido um papel fundamental. De segunda a sexta, e com repetições no dia sábado de todas as projeções da semana, poderás desfrutar da técnica de Hayao Miyazaki. Eis aqui a lista dos filmes e suas datas:

Segunda-feira 17: A Princesa Mononoke. Terça-feira 18: Nausicaa – A Princesa do Vale dos Ventos. Quarta-feira 19: Pompoko – A Guerra dos Guaxinins. Quinta-feira 20: O Serviço de Entrega de Kiki. Sexta-feira 21: Porco Rosso. Sábado 22: Pompoko – A Guerra dos Guaxinins, O Serviço de Entrega de Kiki, Nausicaa – A Princesa do Vale dos Ventos, A Princesa Mononoke, Porco Rosso.

Segunda-feira 24: O Castelo no Céu. Terça-feira 25: Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar. Quarta-feira 26: Sussurros do Coração. Quinta-feira 27: Only Yesterday. Sexta-feira 29: Meu Amigo Totoro. Sábado 30: Only Yesterday, Sussurros do Coração, O Castelo no Céu, Meu Amigo Totoro, Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar.

MicMacs – Um Plano Complicado, ou Jeunet e o seu estilo inconfundível

por max 6. outubro 2011 15:07

 

Meu pai saiu de viagem um dia e voltou com um filme. Tratava-se de Delicatessen (1991), em VHS, claro que em VHS. Eu não podia acreditar, que maravilha. Estava desfrutando do filme mais grato e original que tinha assistido na minha vida, uma obra de arte que falava para mim, que era como eu. Este jovem de vinte anos queria viver no mundo de Delicatessen, queria escrever assim, fazer cinema desse jeito. Lembram-se da cama chiando com ritmo musical? Lembram-se do genial palhaço de Dominique Pinon? Lembram-se dos trogloditas saindo do esgoto? Lembram-se dessa maravilhosa comédia negra? Seu diretor era um tal Jeunet et Caro. Na realidade não era só um, isso eu descobri logo. Eram dois: Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Um par de franceses nascidos nos anos cinquenta, Jean-Pierre no 53, Caro no 56. Mas para mim eram tão jovens como eu. Nesse mesmo VHS havia um curta-metragem. Assisti logo depois do filme e terminei de me deslumbrar. Tratava-se de Foutaises (1989), um curta-metragem onde Dominique Pinon falava das coisas que gostava e das que não. Por sempre lembrarei que uma das fobias do enumerador de gostos eram as barbas sem bigodes. Desde esse dia, quando vejo uma barba sem bigodes, só posso rir. Certo que uma barba sem bigodes é coisa feia.

Depois, em 1995, veio The City of Lost Children, outra obra maestra, apocalíptica, dirigida por ambos. De novo essas cores, o amarelo, o marrom e o sépia rasgado (não sei o que é um sépia rasgado, mas eu gosto) contribuindo à atmosfera, aos cenários alucinantes, aos enquadramentos incríveis que com tudo não pareciam pretensiosos. E a história, uma história cheia de ação, ternura, assombro. Tudo baixo a batuta do forçudo e lacônico One, interpretado pelo grande Ron Perlman, ator de culto, o inesquecível e inobjetável Salvatore em The Name of the Rose (1986) e o único e original Hellboy (por lembrar somente os seus papeis substanciais).

Já em 1997 a dupla de criadores decide se separar e Junet aparece em Hollywood fazendo Alien: Resurrection. Digamos que não foi o melhor, mas também não esteve mal. O certo é que em 2001 volta às suas raízes francesas com Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, uma história de amor carregada de ternura, cheia de magia, detalhes, humor e fragilidades. Audrey Tautou não podia ficar melhor nesse papel, e Jeunet, já um pouco mais separado dos grandes cenários de Caro, põe seus pés em Paris para recriar esta história insígnia da juventude daquele tempo. Amar Paris, amar o amor, amar a Tautou, amar a Jeunet. Ao Jeunet que voltava como um dos diretores mais interessantes do panorama internacional.

E claro é que, se conseguiu se dar tão bem com Tautou, e no passado tão bem com Pinon, então por que não uni-los, por que não fazer outra original história de amor.

Un long dimanche de fiançailles (2004) foi o nome daquela nova experiência. O resultado foi satisfatório e ao mesmo tempo similar, demarcado na linha e estilo do cineasta. Humor combinado com ternura e aventuras, personagens únicos, cenas inusitadas e cores contrastantes.

Cinco anos depois, Jeunet estreia novo filme. Dessa vez trata-se de MicMacs – Um Plano Complicado (Micmacs à tire-larigot). Estamos falando do ano 2009, e de uma obra de caráter coletivo, tipo Delicatessen, cheia de personagens fascinantes, cada um mais estranho e mais maníaco do que o outro, com um tal Bazil à cabeça, interpretado pelo ator Dany Boon (Bienvenue chez les Ch'tis). O assunto é que Bazil ficou órfão por causa de uma mina, e, além disso, tem uma bala alojada na cabeça. Quer dizer, as armas e o Bazil não se dão muito bem, e este detalhe será muito importante na história, pois é o que levará ao nosso protagonista a se aliar com um bando de indivíduos que, juntos, acabarão tentando um boicote contra a indústria armamentista.

Assim Micmacs acaba sendo uma excelente comédia satírica, de alguma forma uma volta a Delicatessen, uma joia da fantasia carregada de humor negro, com tema social marcado e, disso que ninguém fique com a dúvida, marcado também com o já muito definido estilo de Jean-Pierre Jeunet.

MicMacs – Um Plano Complicado, nesta segunda-feira 10 de outubro, na Max.

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