Mau Dia Para Pescar, ou as oportunidades da vida

por max 30. agosto 2011 04:14

 

Há momentos em que as pessoas morrem, nestes tempos, pessoas que não pertencem mais ao presente, muito menos ao futuro. Todos, pouco a pouco, vamos ser assim. O mundo nos deixa atrás de uma forma ou de outra. Talvez esse desejo do homem moderno, de ficar na adolescência perpétua é um reflexo deste medo de ir desaparecendo. Orsini e Jacob Van Oppen, do filme Mau Dia Para Pescar (2009) partilham esta característica. Eles são personagens que estão desaparecendo, pessoas do passado. Eles têm que fazer as rondas dos seus shows em pequenas cidades na América Latina, onde o presente leva mais tempo para chegar, onde o futuro tem a mesma cara de ontem. O primeiro longa-metragem do jovem diretor uruguaio, Alvaro Brechner (direção, produção e roteiro adaptado), se concentra em dois personagens que vivem ancorados no passado, que inventam histórias sobre o seu passado. Orsini (Gary Piquer), afirma ser um príncipe, um descendente nobre de uma família nobre italiana, Jacob (Jouko Ahola) é um ex-lutador campeão. Rodeados pela decadência, pela falta de ter um lugar no mundo, são forçados a se tornarem pequenos trambiqueiros, cheios de tristeza. Sua necessidade é sobreviver, sobreviver de pé mantendo algo da dignidade do seu passado. Sua necessidade é também manter a dor adormecida. O álcool e a mentira ajudam nisso.

No entanto, quando surge a oportunidade, aparece novamente o desejo de se reconstruir, de deixar a fantasmagoria. A alma precisa dar valor ao corpo dentro do qual ela se move. Você deve salvar o corpo para salvar sua alma. O corpo não deve mais ser um fantasma, você deve se sentir orgulhoso de si mesmo, ele deve encontrar um desafio e enfrentar o desafio no ringue da vida. As novas oportunidades para fazer que a vida tenha sentido, nunca são muitas. Deixá-las ir, se elas vierem, significaria a morte definitiva. Deixá-las entrar, também poderia significar a morte, a derrota final. E é este o ponto, onde a nova oportunidade do campeão aparece, quando se estabelece o conflito entre os dois personagens. O desafiador (Roberto Pankow), com quem Jacob vai se enfrentar é um jovem de vinte anos de idade que é chamado de "O Turco". Ele é alto, forte, jovem e precisa do dinheiro do desafio para sustentar o seu casamento. Sua jovem e teimosa esposa está grávida (Antonella Costa). Mas Jacob persiste em seu retorno à vida e Orsini finge para protegê-lo do fracasso, à custa do que for. A vida não é fácil. Em "Jacob e os outros", conto de Juan Carlos Onetti, em que o filme está baseado, aparece esta frase: "A vida sempre foi difícil e bonita."

Mau Dia Para Pescar é uma fábula, um picaresco, um western, uma adaptação cinematográfica de Onetti, uma peça mágica, muito agradável, e a Max apresenta esse filme, para que possamos assisti-lo, na terça-feira 30 de agosto.

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Soundtrack for a Revolution, ou o púlpito dos direitos civis

por max 26. agosto 2011 08:53

 

Negros e brancos estavam estudando em escolas diferentes e claro, a escola dos negros era horrível. Nos transportes públicos, os negros tinham que sentar-se em outro lado, não se misturavam. Os negros não podiam votar. Se um negro sofria um acidente, não importava. Se um branco matava um negro, ninguém era punido. Um negro era uma coisa. No fundo continuava sendo um escravo. Ou pior, porque o amo fazia grandes despesas. Agora o "chefe" pagava salarios menores, um negro livre trabalhava mais que quando existia a escravidão. Um preto livre produzia mais, era mais eficiente e menos dispendioso. Bem-vindo à mentira da liberdade. Onde foi isso? Nos Estados Unidos. Quando? Ainda era a década de 1950. Mas a indignação é um copo de vidro que está sempre cheio, e quando explode é porque já está no topo. O movimento dos Direitos Civis dos Africano-Americanos começou exatamente com algumas gotas que derramaram o copo. O assassinato de Emmett Till em 1955 foi uma dessas gotas. Foram umas pessoas brancas, supostamente porque o jovem Emmett fez um elogio para uma garota branca. Os brancos o espancaram até que ele morreu. A mãe de Emmett se recusou a fechar o caixão durante o funeral, queria que vissem a surra que haviam dado no seu filho. Milhares de pessoas fizeram peregrinações a este santuário, para ver aqueles hematomas de racismo. A indignação foi ainda maior quando os culpados foram liberados nos próximos dias.

Quando Rosa Parks se recusou a abandonar o seu assento no ônibus e dar para um branco, foi presa por perturbar a ordem pública, um ministro batista pelo então desconhecido chamado Martin Luther King, teve a tarefa de dirigir o boicote aos ônibus de Montgomery, no estado da Alabama. Note-se que Rosa Parks estava trabalhando como secretária do movimento dos direitos civis desde 1950, e permaneceu nessa luta até o fim dos seus dias. Claro, este é apenas o começo. O movimento dos direitos civis é extremamente complexo, e cheio de momentos e personalidades. É claro, temos Martin Luther King, Malcolm X e Rosa Parks, entre outros. O movimento dos direitos civis, deve ser notado, foi em grande parte pacifista (por vezes, Malcolm X é excluído destas listas, porque em muitas ocasiões, foi acusado de promover a violência), fizeram acções de protesto de base legal e de rua. Lembre-se, por exemplo, as mobilizações em Mississippi, em 1962, ou a Marcha sobre Washington, em 1963. Todo esse movimento tinha uma inclinação pacifista muito forte, acredito que talvez grandemente influenciada pela religião. E quando digo religião, quero dizer que dos púlpitos dos pastores, a presença de figuras como Martin Luther King, e o sentimento da religião (relacionado com a paz e a compreensão entre os homens) estava lá no início como uma raiz. Além disso, dos templos, saiam cânticos, cantavam os refrões maravilhosos dos coros negros que, em seguida, evoluiram para ser canções de protesta. Ali está localizado Sountrack for a Revolution (2009), de Bill Guttentag e Dan Sturman. Produção executiva de Danny Glover, este documentário conta a história dos direitos civis na América, mas vista através da música, o poder da música para a liberdade, as chamadas freedom songs, cantadas no calor das protestas, nas marchas, nas prisões, as portas dos tribunais. Este é um trabalho que investiga outros lugares, pouco explorados e portanto, ajuda ainda mais a entender este momento crucial na história americana e do mundo. John Legend, The Roots, Joss Stone, Wyclef Jean, Harry Belafonte e outros estão lá, cantando ou falando sobre como eles viviam, o que viram a partir de sua perspectiva, a partir de sua música, o lugar onde é dito com alegria o que doi, que exibe as verdades mais duras, que desgarram o peito e chutam os males do mundo.

A história de ser mais humano, a vitalidade da música, o seu poder, isso é tudo que existe neste documentário maravilhoso.

Sountrack for a Revolution, domingo 28 de agosto. Descubra Max.

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Príncipe das Lágrimas, ou lágrimas em tempos turbulentos

por max 23. agosto 2011 11:46

 

O desaparecimento forçado é a pior forma de perda. No desaparecimento forçado está envolvido o abuso de poder, a loucura da bota, o egoísmo político, as mentes estreitas. O desaparecimento forçado é frequentemente justificado com uma traição, quem deve desaparecer é um traidor. Mas, o desaparecimento forçado começa com uma traição. Alguém próximo trai alguém, que mais tarde será acusado de ser um traidor. Por trás dessas acusações, normalmente não há um patriotismo magnânimo, escondem a covardia, a inveja, o medo, as paixões mais baixas. O desaparecimento forçado emerge da escuridão da alma, e polui o meio ambiente que é a escuridão. O desaparecimento forçado, deixe-me dizer, pode se vestir de prisão por traição, e em seguida de exemplo e execução justa. Em qualquer caso, enquanto que o desaparecimento não é confirmado como morte, na alma poluída de quem vive a perda, aparece ao mesmo tempo uma luz, é uma preocupação que atordoa: a esperança, um dos muitos passes que usa o ser humano para sobreviver em tempos de escuridão. A esperança anima, mas também desespera, gasta. A esperança é uma resistência, mas em tempos turbulentos, geralmente guarda em silêncio, a resignação. Em tempos de loucura sobrevivemos, deixando apenas lágrimas, em silêncio, outra forma de perda. Porque em tempos turbulentos, ampliemos o campo, tudo está perdido. E a lágrima é só impotência, como no conto de fadas Príncipe das Lágrimas (Prince of Tears, 2009), filme onde o desaparecimento, a traição, a esperança, em tempos de escuridão e demissões, são as principais preocupações do cineasta Yonfan. No Taiwan, as vezes chamado de Terror Branco, sob o governo nacionalista de Chiang Kai-shek militar chinês, a lei marcial foi um justificativo para o excesso de qualquer acusação a qualquer desempenho injusto. O filme se passa em uma aldeia remota em Taiwan, onde um casal vive com suas duas filhas, muito confortavelmente, pois ele é um oficial militar aposentado. Um dia, as meninas chegam em casa e descobrem que seus pais não estão. Desapareceram, foram prendidos, o pai foi acusado de traição e de ser pró-comunista. Assim, o filme se desenrola através dos olhos das meninas e do jogo de ocultação, de resistência, de esperanças e desejos, egoístas ou não, do amor. No final, há apenas lágrimas, essa outra perda, essa outra maneira de suportar, em silêncio.

Príncipe das Lágrimas, quarta-feira 24 de agosto, na Max.

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Ciclo de Wes Anderson, ou o brilhante início de um diretor

por max 21. agosto 2011 17:04

 

Wes Anderson é um diretor brilhante, tem 42 anos, e três de seus filmes mais conhecidos são Os Excêntricos Tenenbaums (2001), A Vida Marinha com Steve Zissou (2004) e The Darjeeling Limited (2007). No entanto, a sua reputação como um autor, como cara talentoso, como alguns disseram, como gênio, vem de 1996, quando tinha apenas 27 anos. Naquele ano, o mundo viu o seu primeiro longa-metragem. Estamos falando de Pura Adrenalina (Bottle Rocket), uma comédia que conta a história de dois irmãos, interpretados por Owen e Luke Wilson, (um deles escapou de um centro psiquiátrico), que escolhem, a pesar de não terem a aptidão para isso, apesar de serem profundamente inocentes, a vida do crime. Assim, são formados em pequenos furtos, todos risíveis, até que chega a hora de dar o grande passo: assaltar uma livraria. Um filme com narrativa errática, sem uma linha argumental nem uma história forte (que caracteriza o resto dos filmes de Anderson), mas marcado por uma relação muito especial entre esses irmãos (as famílias disfuncionais, será outro tema futuro do cineasta). Não falta, porém, um ponto de tensão, fornecido pela figura de James Caan, um terrível criminal que vai lhes dar problemas. E esta é outra característica dos filmes de Anderson: que brinca com os gêneros, chegando á paródia. Em Pura Adrenalina o mais marcante são os personagens (e as interpretações dos Wilson), os irmãos danificados, quebrados. Anderson, no entanto, não zomba deles sem piedade. Seu olhar é o de alguém que tenta compreender as suas próprias criaturas com a devida compaixão.

Martin Scorsese (já disseram que Anderson é o novo Scorsese, ou o Scorsese do século XXI, ou algo assim) colocou Pura Adrenalina no número sete de seus 10 filmes favoritos dos anos noventa, e disse a respeito do filme: "Eu amo os personagens deste filme, são realmente inocentes, mas do que eles mesmos acreditam." Curiosamente, como diz o crítico Roger Ebert, Pura Adrenalina é um filme de amigos, de amigos conversando, de amigos que vão e que vêm, de amigos que são como irmãos. E de amigos por trás da câmera, porque Pura Adrenalina é o produto da amizade de Owen Wilson e Wes Anderson. O filme é escrito por ambos, e originalmente foi um curta-metragem feito em 1994 (se você quiser ficar como uma pessoa culta, pode dizer: "Eu vi Bottle Rocket em 1994"). Com este curta debaixo do braço, Wilson e Anderson foram para o Sundance Film Festival buscar financiamento para fazer o longa-metragem, e conseguiram de James L. Brooks e Columbia Pictures. Wilson, pode-se dizer, não é apenas um amigo de Anderson, mas também um de seus atores fetiches e colaboradores.

Então, chegou 1998, e os dois amigos vêem na tela grande outro filme: Três É Demais (Rushmore). Wilson desta vez apenas aparece no roteiro. Anderson, obviamente, como diretor. Como vem acontecendo há anos no cinema americano, ou em qualquer cinema (graças ao francês), o diretor vai levar todo o crédito. Wilson foi e é um ator que escreve roteiros, nada mais. Mas Anderson, Anderson tornou-se em o autor, o gênio com um grande futuro. As pessoas começaram a vê-lo como um visionário, seus fãs o transformaram em um fetiche. O jovem Wes tinha acabado de entregar outro filme independente cheio de características especiais, e de elementos, digamos, inteligentes.

O filme é um grande jogo de estratégia entre dois homens aparentemente muito diferentes, mas com alguns elementos em comum: eles são muito inteligentes (cada um no seu estilo) e amam a mesma mulher. Aqui temos os performances de Jason Schwartzmanm como Max Fischer, um jovem estudante dono de uma inteligência política excepcional, e de Bill Murray, como o magnata Blume, um homem mais velho, cruel e com o mesmo tipo de inteligência de Max Fischer. Ambos são espelhos e disputam o amor da atraente professora Cross (Olivia Williams) num jogo de estratégias, acima mencionado, carregado de um humor muito fino. Aqui temos um triângulo amoroso muito raro (pelo menos no cinema), uma família disfuncional (de alguma forma Blume e Fischer têm uma relação tácita pai-filho), o humor inteligente e cheio de referências, e um certo sabor técnico e fotográfico. Três É Demais é um filme simples, mas com uma estética e uma forma de abordar as questões que fez e faz com que o filme seja percebido como algo novo, diferente, honesto.

Assim, os dois primeiros filmes de Anderson tinham o que as pessoas chamam de o toque de Wes Anderson. Um grande desafio, sem dúvida, para um começo excelente. Ao longo dos anos, o jovem diretor (já não tão jovem) continuou a demonstrar o seu talento, sua capacidade de imaginar, para dar uma virada nas suas obsessões, e engenho criativo. Ele tem seus fãs, e tem seus detratores quando se destaca dessa forma isso não pode ser evitado.

Em agosto, Max convida a assistir estes dois primeiros trabalhos de Wes Anderson. Pura Adrenalina e Três É Demais na segunda-feira, 22 de agosto. Dois filmes muito especiais de um diretor que tem a sua assinatura própria.

Em Busca de Redenção ou pelas estradas com Hugo Weaving

por max 15. agosto 2011 02:23

 

Em Busca de Redenção (Last Ride, 2009) é um filme de estrada (road movie), mas a paisagem não é a dos Estados Unidos, pátria dos filmes de estrada. As formas deste filme percorrem as enormes terras do outback australiano, mostrando uma natureza magnífica, raramente amostrada e apreciada. No entanto, no filme não há lugar para a serenidade do olhar. A essência dos filmes de estrada é se mover em direção à violência, em maior ou menor grau, dos homens e das paisagens. Aqui a violência é gerada a partir do personagem interpretado por Hugo Weaving, um criminoso, um pai violento que foge e leva seu filho pelas enormes rotas da Austrália. Weaving, ator de talento comprovado, é mais conhecido nestas partes do mundo através da saga de O Senhor dos Anéis e a trilogia dos irmãos Wachowski. Lembre-se que The Matrix é de 1999. Naquele ano, começaria a jornada de Weaving como o agente Smith, e o público iria atrás da trilha do ator que fascinava no papel de inimigo cibernético. O primeiro filme de O Senhor dos Anéis data de 2001. Weaving interpreta um personagem totalmente diferente: o elfo Elrond, sereno e sábio. No entanto, podemos dizer que na América um público menor e especializado em cinema já havia conhecido algum tempo antes um filme independente australiano: The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert (1994), uma comédia também na paisagem australiana (outro filme de estrada muito original e divertido), onde Weaving desempenha uma delirante drag queen. O filme foi tão bem-sucedido no circuito de cinema de arte, que Hollywood faria no ano seguinte a sua própria versão, é lamentável que, sob o nome de To Wong Foo Thanks for Everything, Julie Newmar. Claro, Weaving não estaria no elenco, não era digno, não era famoso o suficiente. Os heróis do desastre seriam: Wesley Snipes, Patrick Swayze e John Leguizamo. Mas voltando para Weaving, embora o público americano e os críticos tenham colocado o olho nele, Weaving já era um ator de cinema de renome na Austrália, seu país, com filmes australianos como Proof, 1991 ou The Interview, de 1998. Honrado como ator com o equivalente ao Oscar da Austrália, Weaving, foi desde o início um intérprete com o caminho aberto para a fama. Não é de admirar então que Hollywood lhe desse papéis de peso. Com Em Busca de Redenção, o ator retorna às suas instalações australianas, para realizar esse, como conversávamos, road movie particular que é complementado por uma variante também excepcional na história da aprendizagem, um vertiginoso bildungsroman centrado, naturalmente, no personagem de Chook (Tom Russell), o filho, que é submetido à fúria de um pai criminal que está lutando entre o dever de pai e sua escuridão interior.

Poética e violência, e até mesmo a poesia de violência combinada com o excelente desempenho de Weaving (e não devemos esquecer do menino) para assistir um drama forte, cru e belo ao mesmo tempo.

Em Busca de Redenção, terça-feira 16 de agosto, na Max.

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Boneca Inflável, ou ar, amor e vida

por max 13. agosto 2011 05:24

 

Já escrevemos neste espaço sobre Boneca Inflável de Hirozaku Koreeda. Desta vez eu vou adicionar algumas coisas sobre o fôlego da vida e o amor. Em Boneca Inflável (Air Doll), Nozomi, a boneca de ar feita para o sexo, vive através de um sopro de ar único, que vem talvez do cuidado e carinho de seu dono, que não só a usa para satisfazer o seu desejo sexual, mas que a trata como um ser humano. Essa sensibilidade, esse amor, é a fonte da vida. Mas vamos fazer uma pausa por um momento nesse sopro de ar, e por isso vamos falar de Barry Sanders e seu livro Sudden Glory. Sanders disse: "A respiração é o milagre básico da vida. Circulando por todo o corpo, tem sido chamado de muitas maneiras -prhana, spiritus, afflatus, pneuma, anima- mas seja o que for, o nome sempre foi relacionado com algo sagrado. Toda a civilização é montada no ar, toda a criação foi possível graças ao elemento insubstancial." Sanders lembra que na tradição judaica e cristã, o sopro de Deus é santo. No cristianismo, Deus castigou Adão e Eva e a humanidade reduzindo o fôlego da vida. Uma vez que o fôlego deixa o corpo, o homem morre. A respiração, que era apenas emprestada, eleva-se a sua localização original, ao lado de Deus. A respiração é a alma. Como você vê, a respiração, não é qualquer coisa, o ar não é qualquer coisa. Em algum ponto da história, com o Novo Testamento, o sopro da vida (alma) se junta à profunda convicção do amor cristão. O amor como elemento salvador, e, portanto, também de vida. Amor e ar estão inevitavelmente ligados.

O Amor, entretanto, é a afirmação da vida. O buraco da vida, todos os dias, a constante repetição, a falta de sentido cotidiana, está cheia de amor. O amor afirma a existência própria e a do outro, o amor faz você sair da massa e ser único. Diz Fernando Savater no seu livro Convite à ética: "Não existe amor universal, não pode haver nada genérico no amor." Assim, o sopro do amor dá vida, como acontece com a boneca Nozomi (interpretado pela atriz Bae Doona) e com o filme de Hirokazu Koreeda. A boneca, destaca do resto dos bonecos ganha vida e começa a sentir-se curiosa sobre o mundo. Mas o mundo está vazio, as pessoas estão vazias. Tudo é massa, falta amor, falta amor pelo outro. A singularização não está completa. Assim, Nozomi sai para viajar pelo mundo e, finalmente, se reconhece e reconhece alguém. A Nozomi começa a se sentir realmente viva. O amor torna-se então uma força. Cito Savater citando Goethe: "Sentir-se amado dá mais força do que se sentir forte." Essa é a força da vida, é o que faz a boneca se tornar cada vez mais humana. Este filme de Koreeda nos leva a fazer perguntas, sobre os motivos da vida e as razões do amor. Para encerrar, deixo esta frase de Stendhal, perfeita para Nozomi: "Sentir o prazer de ver, tocar, conhecer com todos os sentidos, o mais perto possível, um objeto amável, que seja amável para nós." Nozomi certamente é um objeto agradável que toca e é tocado, que vê e é olhado. E como diz Savater, "objeto amável" só pode ser propriamente uma pessoa. Nozomi, ao invés de um objeto é uma pessoa.

Boneca Inflável, domingo 14 de agosto. Descubra Max.

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Samson & Delilah, ou o poder do amor

por max 10. agosto 2011 04:12

 

Sansão e Dalila são dois nomes comuns em comunidades de aborígines australianos, especialmente no centro do país. O diretor Warwick Thornton usou esses nomes para o título de seu primeiro filme, Samson & Delilah, (2009) e também para desenhar seus personagens e não por puro acaso. Lá, nestes dois jovens amantes, indígenas e silenciosos, repousa metaforicamente, a história do colonialismo e da alienação. A influência dos colonizadores, sua religião, seu mundo, suas idéias, sua dominação sobre os aborígenes australianos se reflete lá. O peso desses poderes mata e subjuga as almas, torna-as mudas, inúteis, incapazes de rebelião. O cineasta simboliza a religião como um instrumento de dominação, mas também como elemento de salvação (como veremos). A partir do título, Warwick Thornton apresenta a idéia de alienação, de uma alienação que levou a esses personagens, alegorias talvez de uma comunidade mais ampla, o vício (Sansão cheira combustível ou petróleo para se drogar), e o silêncio cultural. Ambos os aspectos são projetados no filme: drogas e silêncio. Sansão e Dalila não falam, não podem falar. Ainda assim, a história é sobre eles, e fala por eles, para exibi-los. Mas mostra como são: uma marginalidade cultural, uma raça minoritária, que perdeu o seu território e a sua capacidade de decidir por eles mesmos. Não pode haver mais bocas fechadas neste filme. No entanto, Thornton, inteligentemente faz-los falar. Eles se comunicam com o público através dos sons da música, das suas ações, dos seus corpos, até mesmo da violência. Algo neles quer se libertar, e vemos isso através de seus corpos, e de suas ações. E algo neles termina, efetivamente sendo libertador, através da purificação. O mundo bate neles, são mesmo obrigados a fugir de suas comunidades, e a se establecer mal na cidade, entre os excluídos, prostitutas, criminosos. Na cidade, Sansão e Dalila fazem parte do conglomerado que é violento para si mesmo, não é protegido, não conhce nenhuma lei. Sansão e Dalila não são uma raça, não são uma etnia (palavra confortável que significa minoria), e estão no mesmo nível que qualquer escória social. Para eles, então não resta nada mais do que o amor. Mas não apenas o amor deles dois, porém o amor que purifica, o amor religioso. Paradoxalmente, o que Warwick Thornton critica é essa dominação e o abandono do poder que começou com a colonização, também recebe uma resposta, uma saída. O filme não é uma simples fábula maniqueísta. O que já foi, permanece, o que deve ser feito é tomar o que é verdadeiramente valioso na grande estrutura do poder. E o que é verdadeiramente valioso e a mensagem original; nada mais e nada menos que o amor como um ato de purificação. Da religião debemos ficar com o amor, e não com seus atos de violência. Não é a religião a que erra, porém os homens. A estrutura está lá para ajudar, basta limpar as camadas de sujeira e viver o que verdadeiramente salva. Assim, o amor entre Sansão e Dalila não é apenas para contar uma história bela e terrível, mas também para mostrar uma compreensão da sociedade que resgata um argumento que muitos consideram obsoleto e desacreditado excedente: o amor como uma ferramenta mística. Warwick Thornton apela ao futuro em um mundo onde o hedonismo, o individualismo áspero e um certo capitalismo cego parecem dominar. Apelando para este futuro contrasta o esgotamento da modernidade a uma estrutura muito antiga de pensamento: a religião, entendendo o religioso como uma atitude espiritual profunda, de renovação espiritual do homem.

Samson & Delilah, quinta-feira, 11 de agosto, na Max.

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O pátio da minha prisão, ou o corpo e a liberdade

por max 8. agosto 2011 03:38

 

Nas sociedades disciplinares, o corpo deve ser subjugado, limitado, educado para que a sua energia seja usada o mínimo possível, mas acima de tudo, com a finalidade de produzir, é de que seja eficiente. O mesmo se aplica as instituições, como é compreendido e explicado por Foucault em Vigiar e Punir. Instituições como locais de confinamento (quartel, escola, hospital, prisão) que visam criar um grupo falso que realmente isola o indivíduo dentro da massa. O corpo, em geral, é domesticado no registro técnico e político "para controlar ou corrigir as operações do corpo." Foucault diz que o corpo é "mais útil quanto mais obediente." Especificamente nas prisões, onde o indivíduo e seu corpo deve ser isolado, como Foucault aponta, a fim de "acabar com os tumultos e parcelas que podem se formar, evitar complicações futuras ou possibilidades de chantagem (o dia em que os detentos estão livres), impedir a imoralidade de tantas "associações misteriosas". "A prisão tem como estatuto prevenir a formação de uma "pequena nação" no coração de uma grande." Como sabemos, Foucault fez a sua análise sobre o nascimento da prisão e seu desenvolvimento na Europa, principalmente durante o século XIX. A questão é se isso é conseguido em nosso tempo e em alguns países onde o caos da prisão não é um sonho do século XIX.

A realidade para estes casos parece ser outra. Por um lado, o corpo não sofre um processo de treinamento onde trabalha a eficiência, porém a humilhação constante. O corpo é de pouco valor, sua higiene, as roupas que o cobrem, a sua comida, seu ataque constante na chamada busca. Na prisão das mulheres poderia ser pior. Porque sem dúvida, o corpo feminino sempre foi cercado por mais mistério, mais tabu, mais discrição. Assim, o corpo nas prisões não é produto de disciplina, porém da violência do poder, e por outro lado, do lazer. A superlotação está a favor desses itens. A idéia da correção desaparece completamente. Na prisão, o infrator não vai reconsiderar seu crime, a solidão é a alienação, não são purificação espiritual. No caos da superlotação, o poder não pode fazer nada, você perde o controle. Aqui só existe o "país pequeno", o interior, com suas próprias leis. Então, quando os guardas estão envolvidos, são como máquinas de guerra, máquinas violentas, agressoras. Qualquer individualização coercitiva está perdida, a combinação terrível de outros poderes é possível. Lá, o indivíduo é novamente uma coisa, mas uma coisa ainda menos valiosa do que o corpo disciplinado, porque o corpo disciplinado é útil para a sociedade, aqui, o corpo do lazer só é útil para os interesses daqueles que mandam. Não desaparece o que Foucault chamou de emprazamento funcional, ou seja, a idéia de prisão como área utilitária, que porém é transformada. A prisão e os corpos encontrados lá permanecem rentáveis, para a escuridão, para as coisas que não são claras. Que possibilidades existem, então? O pátio da minha prisão (El Patio de mi Cárcel, 2008), de Belén Macías oferece alguns olhares diferentes, um pouco de esperança sobre este assunto. Centrado na questão das mulheres, Belén Macías apresenta a oposição da arte ao caos e a disciplina violenta da prisão. A solução está na educação, em incluir estas mulheres em outra disciplina, desta vez a teatral. O corpo no teatro se transmuta, concentrando-se, fazendo exercício, vem a calhar. Ao mesmo tempo, o teatro é perigoso. É uma forma de parceria de corpos, é uma forma de libertação das mentes. O corpo é útil no teatro, é útil para pensar, e é útil para denunciar. Eles são um grupo, um coletivo "social" conhecido por se opor ao poder coletivo criminoso e estuprador, um grupo social, que pensa ter encontrado o caminho da liberdade dentro da disciplina do teatro, dentro da prisão e seu caos, e além disso, sendo mulheres.

O pátio de minha prisão, quarta-feira, 10 de agosto, na Max.

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Kabuli Kid, ou os dias de humor

por max 4. agosto 2011 08:18

 

Os teóricos dizem que o humor sempre foi controlado pelas leis que regem a sociedade. Ontem e hoje, comédia e riso são restritos, a fim de evitar críticas aos poderes. Atualmente, existe também, digamos, uma espécie de humor oficial. O da comédia light, o da publicidade, altamente benigno, sem críticas importantes, sem estágios do grotesco, um humor solidário, que controla o indivíduo, o satisfaz e não o torna rebelde. Nos teatros a comédia é divertida, não humorística. Há risos, e atrás do riso só há riso. Tudo é transparente, diria Baudrillard, diria Lipovetsky. Esta transparência não tem mensagem de fundo, de representação: o que você vê é o que é.

No entanto, eu não acho que tudo deva ser pessimista. Eu acho que os nossos tempos também oferecem espaço para outras variantes do humor. Os seres humanos são múltiplos e podem ter sutilezas, níveis, variações, complexidades no próprio sabor de sua época. Pode haver humor empático, um humor que apela para uma certa ternura e aparente leveza, um humor que mostra uma certa beleza no caos, e ainda pode ser um humor sério, e ao mesmo tempo comovente e esperançador. O Bebê de Kabul (Kabuli Kid, 2008), primeiro filme de Barmak Akram é um tipo de épica bem humorada, picaresca e que está em conformidade com estes objectivos, para explorar e aprofundar as ruas de Kabul, uma cidade que a maioria de nós só conhecemos através do olho da câmera de jornalismo. Isto, em si mesmo, torna-se o valor fundamental do filme, mas também está lá como um elemento fundamental, o olhar que busca decifrar o papel das mulheres na sociedade afegã, após o governo do Talibã. Assim, tanto a visão complexa da cidade e seus personagens e o drama das mulheres se inserem no amplo quadro de humor, um humor que, deveríamos dizer, talvez só é possível dentro da sociedade afegã que começa (parece ser a visão do cineasta), que tenta romper com o radicalismo e abrir um mundo de democracia liberal. Os talibãs da alma não gostam de risadas. Os revolucionários vivem em eterna raiva, enfiados na ira divina. Os revolucionários, que dizem que têm toda a razão do espírito, não sabem rir: sua missão é eterna, seu trabalho é interminável. Ninguém pode estar rindo se está tão ocupado. No entanto, nesta cidade, neste país de volta à civilização, o riso vem como um sinal civilizador. Não só é o nosso dever lançar um olhar crítico sobre a sociedade através do humor, mas também temos o direito de rir de nós mesmos. Este motorista de táxi é feliz em seu táxi falando sobre as vantagens do seu novo mundo, este motorista de táxi que de repente vê uma criança abandonada na parte de trás do táxi, este motorista de táxi que sai procurando a mãe, este motorista de táxi termina adotando papéis próprios das posições dessas mulheres anónimas, que são obrigadas a esconder o rosto pela religião, este motorista é o ponto ficcional onde se confrontam a cultura que está morrendo e a cultura que busca nascer. Talvez o diretor está dizendo: se nós queremos crescer, temos de mudar completamente, não apenas no que queremos.

O Bebê de Kabulé uma peça única, pequena, mas enorme, que ao mesmo tempo nos conecta com outra cultura, com outros pontos de vista, e com o mesmo humor universal, que continua fazendo a alma dos homens.

O Bebê de Kabul, sexta-feira 05 de agosto, na Max.

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