O passado em Cannes

por max 29. abril 2011 12:00

 

 

Você sabe quem é a linda mulher que aparece no pôster da mais recente edição do Festival de Cannes? Trata-se nada mais e nada menos que de Faye Dunaway, a famosíssima atriz que participaria da fundação do chamado novo cinema norte-americano ao lado de outras atrizes como Barbra Streisand, Ellen Burstyn, Diane Keaton e com atores como Roberto De Niro, Jack Nicholson, Robert Duvall, Harvey Keitel sob a tutelagem de diretores como Scorsese, Coppola e Spielberg, entre outros. Dunaway, ao final dos anos sessenta e início dos setenta, derrubou muitos padrões culturais da indústria. Ela não tinha o tipo da estrela de Hollywood desses anos. Não era o protótipo da mulher bonita, para dizê-lo de alguma forma. Tinha um rosto diferente, exótico, inclusive de certa maneira mais próximo ao demoníaco que ao angelical. Dunaway, recordemos, também protagonizou em 1967 um filme que causaria sensação e escândalo no velho Hollywood: Bonnie and Clyde, ao lado de Warren Beatty. Um filme onde todos os atores parececiam pessoas normais, muito violento e que exaltava a vida de uns delinqüentes sanguinários. Dunaway esteve aí, marcou uma época e logo sua imagem e seu estilo particular a tornaram digna de uma fama muito merecida. Logo foi sinônimo de elegância e talento. Um monstro da arte, uma diva. Hoje em dia, essa marca se mantém. Dunaway é ícone da arte, das melhores atrizes que já existiram, da grandeza de um passado que para muitos é glorioso. E com certeza, essa necessidade de olhar para o passado está muito presente na contemporaneidade. O que é chamado de fenômeno da pós-modernidade planteia a morte da História. A História morre quando, segundo os filósofos da pós-modernidade, caem os grandes relatos que sustentam a idéia do progresso, do futuro melhor, da emancipação definitiva do homem. Quando caem estes relatos? Quando se demonstra que a ciência só levou à bomba atômica, às armas químicas, à guerra. Quando fica em evidência a pobreza, a fome, a brecha tecnológica, o fracasso das ideologias. Então, quando se rompe a idéia do futuro, também se rompe a História com H maiúsculo, porque essa história foi escrita por aqueles que mantiveram poder da voz universal e que não olharam para os lados até que tudo se converteu em tragédia. Então, essa versão da história e essa visão do futuro se derrubam, explodem e, ao não existir futuro, dirigem o olhar para o passado. No passado está o que é bom, o que é de qualidade, o que é lindo, verdadeiro e justo, o que deveria ser visto para trabalhar no presente e tentar criar um presente melhor dentro da perspectiva da pós-modernidade. Daí que a homenagem, a paródia, a imitação, a recuperação do passado esteja presente nas artes contemporâneas. Por isso não surpreende ver essa imagem de Faye Dunaway no novo pôster da 64ª edição do Festival de Cannes. Para os organizadores, Dunaway é sinônimo de elegância e prestígio, de um cinema —neste caso o novo cinema norte-americano— que em outra época foi magnífico, importante por atrever-se a romper preconceitos, tabus, por buscar sempre a arte, a essência da parte humana, sem menosprezar o entretenimento. Recordemos também que o novo cinema norte-americano nasceu com uma forte influência do cinema francês. Portanto os franceses, não podiam deixar passar a oportunidade para prestar homenagem a um cinema que homenageia, de certa maneira, ao seu cinema. Dunaway, essa mulher americana que no entanto também é tão européia, está ali, rodeada de elegância e beleza nesse pôster da nova edição do festival.

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Ciclo de filmes vencedores em Cannes, em maio na Max

por max 17. abril 2011 20:23

 

 

Cannes, aquela pequena cidade da Riviera francesa nunca imaginou, digamos que no início do século, que pelas suas ruas iriam caminhar Orson Welles, Luis Buñuel, Ingmar Bergman, Jean Cocteau, Brigitte Bardot, Fellini, Antonioni, Truffaut, Godard, Robert De Niro, Quentin Tarantino ou os irmãos Coen. Nunca pensou que as suas ruas ficariam lotadas, que chegariam mais de três mil jornalistas aos seus prédios ou que seria uma das cidades mais glamourosas do mundo, devido a que uma vez por ano, seria uma grande festa do cinema. É preciso agradecer ou culpar ao fascismo, a Mussolini, ao Festival de Veneza e a uns franceses irritados. Porque foi isso que aconteceu. Consta que, em 1938, no Festival de Cinema de Veneza (fundado por Mussolini) o fascismo colocou a política diante da arte e o filme favorito, La Grande Illusion de Jean Renoir, fracassou de um modo terrível. Os franceses voltaram para casa irritados e como bons franceses, voltaram sua raiva contra os outros em uma forte reclamação a sua autoridade, exigindo que a França tivesse um festival de cinema à altura do de Veneza. Um festival de cinema que premiasse a arte e não a propaganda política. Assim, Jean Zay, ministro da Educação Pública e Belas Artes, que também queria implementar no seu país um evento cultural internacional para disputar a Mostra de Veneza, começou a trabalhar sobre o assunto. Seu primeiro presidente seria Louis Lumière, um dos pais ilustres do cinema. Isso foi em 1939, e depois começaria a guerra. Portanto, não foi até o dia 20 de setembro de 1946, quando aconteceu a primeira edição do cobiçado Festival. Imediatamente se tornou um sucesso. E os franceses permaneceram irritados, com raiva, mas por outros motivos, quem sabe quais. O festival, em seguida, foi realizado anualmente em setembro (exceto em 1948 e 1950) antes de ser transferido para maio, a partir de 1952.

Hoje, a vitória em Cannes é a consagração, caminhar por Cannes, ser fotografado, entrevistado, visto, desejado, é o auge da fama e da realização profissional. Todos os anos, no mês de maio, seus 70 e tantos mil habitantes vêem chegar repórteres, cinegrafistas, fotógrafos, produtores, atores, diretores... todos giram em torno dos filmes que vão ser exibidos lá durante duas semanas de paixão pelo cinema. Este ano, a 64 ° edição do festival, vai acontecer entre o dia 11 e 22 de maio e os jurados serão personalidades como Emir Kusturica e Michel Gondry, entre outros.

Em maio, exatamente entre o dia 11 e o dia 22, Max presta homenagem a um dos festivais mais importantes do mundo. Lá, onde são combinadas a essência da arte, da melancolia, do tremebundo, da beleza da imagem, da arte do cinema. Doze filmes serão homenageados no festival, doze estilos diferentes para refletir em torno ao mundo. Doze idéias, doze máquinas para apresentar o mundo. Il Divo, Viagem de Férias, All That Jazz - O Show Deve Continuar, Eu tu eles, Dia Noite Dia Noite, Persepolis, Matadores de Velhinha, Gomorra, Depois de horas, Sonata de Tóquio, Vida Cigana, A Profeta. Um filme por dia. Doze obras no total.

Em maio, assista Max e descubra a arte do cinema através do Festival de Cannes.

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Il Divo ou a arte de ser anjo e demônio ao mesmo tempo

por max 17. abril 2011 20:14

 

 

Na quarta-feira, 11 de maio vai começar o 64º Festival de Cinema de Cannes e na Max vamos prestar homenagem a um ciclo de obras de vencedores do festival. Vamos começar com Il Divo, de Paolo Sorrentino, filme que ganhou o Prêmio do Júri, em 2008. Il Divo enfoca a vida do famoso político italiano Giulio Andreotti. O Divino, como eles dizem, é um personagem da vida real que parece ter saído da imaginação mordaz de um escritor satírico. Andreotti tem uma cara muito especial, uma visão única, com uma forma de caminhar muito reta, com os braços colados, como se seu corpo fosse um escudo que não deixa sair a mais profunda escuridão da alma. Porque Andreotti, chamado O Divino por suas relações estreitas com o Vaticano, talvez porque ele reze todos os dias, talvez porque fale latim com perfeição, talvez por ser democrata-cristão, talvez porque ele tenha grande carisma, talvez porque ele seja amado por muitos, é também conhecido como Belzebu. Belzebu, porque mais sabe o diabo por ser velho do que por ser diabo e tem muitos inimigos, tanto como adoradores. Belzebu, sim, Belzebu, porque ele diz que teve relações ou negócios com a máfia. Porque foi sete vezes primeiro-ministro e porque durante 45 anos foi vinte vezes membro de todos os governos. Porque ele tinha muito poder e o poder de uma forma ou de outra, acaba sempre interagindo com o mal. Porque ele foi acusado de corrupção, porque ele tinha a ver com o famoso Tangentopoli, um caso de corrupção que começou em Milão, e envolveu comissões (em italiano tangente significa comissão e polis pela cidade italiana de Milão, ou seja, Cidade de comissões). Ele foi conectado da mesma forma com o colapso do Banco Ambrosiano (banco do Vaticano), com as comissões para os contratos de petróleo Enim-Petronim e com a compra de aviões Lockheed. Até foi acusado de ter mandado matar o jornalista Mino Pecorelli, que estava investigando a morte do lendário político democrata-cristão Aldo Moro. Moro, como se sabe, foi assassinado pelas Brigadas Vermelhas em 1979, mas a questão não é tão fácil quanto parece e mais do que um só político esteve envolvido. No entanto, O Incombustível, como também é chamado Andreotti não se queimou com tanta perseguição e tem conseguido se livrar, com seus 92 anos, de todas as acusações. Esse homem, esse velhinho lindo, com muito bom humor, disse pérolas como esta: "Pode ser um pecado pensar mal dos outros. Mas raramente será um engano." Il Divo estrelado por Toni Servillo, mergulha profundamente nos gestos e na psicologia do famoso político e traz uma interpretação notável. Seu jovem diretor, Paolo Sorrentino, apresenta-nos, através deste filme estilizado e cheio de movimentos de câmera, um momento específico na vida do Divino, mas também viaja para o passado e mostra marcos importantes na vida deste personagem tão fundamental na sociedade italiana do século XX. Sorrentino fez um filme político, cheio de acidez, humor, drama e sujeira, um herdeiro do cinema de grandes cineastas italianos, da grande tradição da arte. Em Il Divo, corrupção e cinismo campeiam, igual que a violência, o assassinato e a corrupção. Qualquer meio justifica o fim. Mas a questão é, que fim?

Il Divo, na quarta-feira, 11 de maio, iniciando o ciclo de filmes premiados em Cannes que Max traz em exclusiva.

E você já sabe, descubra Max.

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Viagem de Férias ou os horrores e o fascínio do imaginário

por max 17. abril 2011 20:03

 

Na França, sabemos que a expressão "classe de neige" ou "tipo de neve", refere-se ao momento em que os alunos de uma turma vão para a montanha, com os professores, para descobrir a montanha, praticar esportes de neve e conhecer os prazeres, mas também os rigores do inverno. É uma espécie de férias de iniciação e crescimento. 

O que me impressiona de um filme como Viagem de Férias (La Classe De Neige, 1998) de Claude Miller, é que vai mais além no tema da imaginação e do processo xamânico, estranho e duro no qual a criança começa a abrir os olhos para o mundo. Neste caso, o filme faz uso de um elemento típico da juventude diretamente relacionado com a evidência do crescimento: a viagem de férias. Fora de sua casca, submetido a forças externas, Nicolas (Clement Van den Bergh) vive uma comoção interna de seu mundo que o leva a mergulhar no pesadelo de sua imaginação. Mas aqui, aquilo que tem sido elogiado pelos poetas e artistas ao longo da história da humanidade, essa imaginação instituída como salvadora, torna-se um elemento assustador. Viagem de Férias é  um exemplo de como a maldade humana, a estupidez, a incompreensão ou as bobagens dos adultos podem pervertir uma das tábuas de salvação mais importantes para as crianças e os homens em geral. A imaginação também pode ser letal para os humanos. Lembro-me do curta-metragem Vincent de Tim Burton, onde o jovem Vincent, um fã de Edgar Allan Poe e Vincent Price, vive trancado em um mundo escuro, mas ao mesmo tempo fascinante. No entanto, embora a imaginação seja projetada nessas histórias como a fonte do medo e da tragédia, seus diretores não deixam de criar espaços e momentos maravilhosos e visualmente deslumbrantes. Talvez acudamos aqui para o que Rudolf Otto chamou de o numinoso, isto é algo que está relacionado com a experiência do sagrado, uma experiência terrível, mas ao mesmo tempo de beleza e de crescimento espiritual (Rilke disse uma vez que cada anjo é terrível). Nicolas é um jovem que como todos os jovens, ainda não conhece as coisas do mundo, ainda vive preso em um determinado espaço e tempo. Quando sai de lá, para a floresta (o acampamento), onde habitam o mistério, os deuses e demônios, seu mundo se expande, mas expande-se em um confronto com o desconhecido e neste caso, o desconhecido não é só exterior, também está dentro dele. Daí vem a experiência, vai crescer e entrar no novo mundo de coisas profanas, onde poderá estar mais em controle de si mesmo e do universo. Nicolas tem medo do mundo e de seu pai e vai ter de enfrentá-los para se tornar um homem. Esse enfrentamento se torna uma desculpa perfeita para Miller, inspirado no romance da escritora Emmanuel Carrere, para criar essas outras realidades moldadas pelas construções da imaginação, fazendo o espectador entrar num estado comum de prazer e horror. Surrealismo, literatura fantástica, absurdo, a história de crescimento, o drama introduzido no medo, está tudo lá, no filme equilibrado, bem colocado, fenomenal. 

Viagem de Férias ganhou o Prêmio do Júri em Cannes. É o nosso segundo filme em homenagem a um dos festivais mais importantes do mundo. Assista, na quinta-feira 12 de Maio. 

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O show deve continuar ou o negócio do sucesso

por max 17. abril 2011 19:57

 

 

Somente é possível ter sucesso de uma maneira. Dinheiro, fama, superficialidade, esgotamento, estresse, divórcio e solidão, são fundamentais para o sucesso. Claro, você também pode ficar quieto, se anular e continuar fazendo sucesso. Outros são consumidos pela paixão da arte. Tudo se abandona pela arte, a dedicação é total. Mas até onde essa paixão tem a ver realmente com a arte e não com o sucesso, com se destacar e com a fama? O sucesso está sempre lá, e não há como escapar. Como maquinaria da sociedade, o sucesso é uma armadilha, regula, controla qualquer rebeldia que venha da arte. Não há escapatória para o sucesso. Ele está sempre lá, levando-o pela mão, destruindo até você mesmo, se não se acalmar. A máquina controladora não aguenta muito tempo a exceção. O empresário, é engravatado e domesticado pelo sucesso, é silenciado e massificado. Mas o sucesso do artista é um excesso difícil de manter dentro de uns limites. A fim de dosificar, se necessário até mesmo destruir o mito do artista maldito. Para o artista, aplica-se Freud como a base do mito: o princípio do prazer leva ao desejo de morte. A não ser que você queira morrer, tome cuidado, porque ser um artista leva ao vício e à morte. O mito do artista maldito seduz e cria, em certos indivíduos, a necessidade de viver isso em primeira mão. Destrói os artistas em potencial, aqueles que ainda não foram,  aqueles que se rebelam só de boca, mas que ainda não começaram a fazer arte. O verdadeiro artista, o que tem obra, também não está livre do mito da auto-destruição. Porque esse mito no fundo tem um grande ponto de venda: em meio do caos, no tormento, na obsessão, cria-se em grande. Criar arte, destruir e se destruir. Não importa quanto dano me faça, não importa quanto dano faça aos outros, a arte vai prevalecer sempre acima de tudo. Arte, coisa sagrada. Arte, desculpa sagrada.

All That Jazz - O Show Deve Continuar (All That Jazz, 1979), grande musical de Hollywood vencedor da Palme d'Or em Cannes, filme clássico do cinema americano dirigido por Bob Fosse, é um filme autobiográfico que gira em torno da figura do artista "de sucesso" submerso nos vícios e já perdido neles, não encontrará redenção. Um retrato muito honesto do próprio Fosse na figura de Joe Gideon (interpretado por Roy Scheider) e que a partir de uma vida particular, torna-se universal, precisamente, para mostrar a relação do artista consigo mesmo e com a sociedade.

All That Jazz - O Show Deve Continuar na sexta-feira, 13 de maio continuando e coincidindo com o festival de cinema francês mais importante de todos os tempos, nada mais e nada menos que Cannes.

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Eu tu eles ou a mulher que já não está sozinha

por max 17. abril 2011 19:52

 

 

Uma mulher latino-americana —sozinha, sempre sozinha— que já ficou com vários homens e deles teve vários filhos. Não é estranho, não é uma situação que surpreenda um cidadão deste continente. Mulheres do interior ou das grandes cidades, que vivem como podem, repetem este argumento dia a dia. As mulheres são as que sustentam a sociedade. Elas são o pai e a mãe, as guerreiras. Embora a mulher de maiores recursos deva se casar, ter filhos e cuidar do seu lar; deve estudar, ter sucesso no seu trabalho e também se casar e ter filhos, nestes outros estamentos, a mulher já conhece de antemão o seu espaço dentro da sociedade em que deve viver: apaixonar-se, ter filhos e perder o marido. Assim cremos que o dita, tal como nos diz Roland Barthes, «a natureza das coisas». Mas se continuamos com Barthes, entendemos que não existe isso de «a natureza das coisas». Não existe nada que seja natural. Não há nada natural na religião que seguimos, nem no estado civil, nem nas conquistas acadêmicas. As construções sociais são signos e os signos não têm conteúdo real. Os signos se formam no acordo entre indivíduos. Não há nada natural nas construções sociais. Em Mitologias, Barthes nos apresenta o exemplo da luta livre. A luta livre não é real, esses caras que estão sobre o cenário não lutam de verdade; sua luta é uma representação, uma dança. O público sabe isso, mas está de acordo com a representação. Preste atenção: está de acordo. Todos, lutadores e público, entram dentro de uma estrutura, dentro de um código, dentro de uma linguagem de signos. O que parece natural, não é. É tudo falso, é tudo uma montagem, é tudo representação na luta livre. Isso mesmo acontece na sociedade em geral. O que parece natural, não é. Quer dizer, uma mulher pobre não está obrigada ao filho e a perder seu marido em algum momento deste processo. E geralmente, uma mulher não é obrigada a ter um só homem ao mesmo tempo (ou um homem nao é obrigado a ter só uma mulher ao mesmo tempo). É natural tudo o que foi dito antes? Assim o assumimos, somente assim o assumimos. O roteiro, a história, poderia ter sido outra. Uma história começa onde a convenção social se rompe. Isso o sabem ou o intuem, os criadores de histórias. Isso fez o diretor brasileiro Andrucha Waddington quando escreveu a história do seu filme Eu Tu Eles, 2000. Uma mulher do campo, uma mulher rural, em uma paisagem imensa, árida e de pouca gente, onde essa pouquíssima gente mantém olho avizor sobre as convenções. Quanto maior for o espaço, quanto mais longe estiver a civilização, mais guardiões da ordem parecem existir. Mas aqui, nesta história, alguém decide se rebelar: uma mulher, uma mulher feia mas estranhamente sensual, inteligente, atraente. Uma mulher que decide não ter só um homem, mas sim três, e não os três separadamente, como manda o roteiro do abandono, mas sim três ao mesmo tempo, três em casamento. Essa é Darlene (Regina Casé), uma destruidora de construções sociais que foi esmagada por estas e então decidiu começar a ver —e a desejar— o mundo de outra manera. Uma rebelde, uma esquizo talvez assim a chamariam Deleuze e Gauttari, uma agente do desejo, da máquina que deseja, essa máquina que produz uma realidade onde se pretende derrubar a construção social, onde se pretende criar outros signos para crescer espiritualmente dentro deles. A história de Darlene em Eu Tu Eles é a história de uma rebelde, de uma construtora de outras realidades que deveriam servir como exemplo para melhorar esta realidade. Esta lamentável realidade que devemos viver.

Eu Tu Eles, sábado,14 de maio, no especial de cinema dedicado ao Festival de Cannes.

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Dia Noite Dia Noite ou Kafka terrorista

por max 17. abril 2011 19:45

 

 

Dia Noite Dia Noite (Day Night Day Night, 2006) me faz pensar em uma variante contemporânea de Kafka, mas o primeiro filme de Julia Loktev não é exatamente kafkiano, nem acho que tenha sido criado com essa visão. Já no começo, o filme nos leva para determinadas formas de compreensão do conceito do que Kafka introduziu na literatura. Milan Kundera diz de Kafka, em A arte do romance: "A maneira como ele vê o "eu" é totalmente inesperada". Por que K. é definido como um ser único? Não é por causa de sua aparência física (da qual nada se sabe) nem por sua biografia (ninguém o conhece), nem pelo seu nome (não tem), nem por suas lembranças, pelas suas inclinações ou seus complexos. Talvez seja devido ao seu comportamento? O campo livre de suas ações é lamentavelmente limitado. Graças aos seus pensamentos mais íntimos? Sim, Kafka segue de perto os pensamentos de K, mas estes só se preocupam com a situação presente: o que fazer lá, imediatamente." Isto último, já diz Kundera, é um campo muito limitado, um campo que fica com o momento, embora conheçamos os pensamentos de K. com respeito a tais situações, não sabemos mais sobre ele. Isto faz com que seja terrível, monstruoso. É como andar com um cara que não sabemos que está maluco até que ele começa a falar bobagens ou até que mata alguém. K. é qualquer um, qualquer pessoa que nos rodeia. É alguém de quem conhecemos o dia-a-dia, porém nada mais. Um colega de trabalho, um vizinho, qualquer um cuja vida esteja completamente absorvida pela vida presente. Você, eu. A personagem feminina do filme de Loktev é como K., um personagem que só vemos vivendo o presente, não conhecemos o seu passado nem o que busca. Ela tomou uma decisão: decidiu se tornar uma bomba humana para explodir na Times Square. Mas sabemos só isso. Na verdade, a garota não tem as características típicas que poderia ter um terrorista forjado no lugar comum (nesses tempos, árabe, muçulmano). Ninguém sabe de onde a garota vem, a sua nacionalidade é desconhecida, embora não conheçamos os seus pensamentos, podemos vê-la no presente desde a sua chegada no aeroporto. Igual que K., a garota é guiada por um poder superior a ela (outra característica de Kafka), essa voz ao telefone que, como os emissários e outros representantes que aparecem em O Castelo, vão levando os personagens de lá para cá , dominando a sua totalidade. A garota terrorista que vive a sua cotidianeidade, seu treinamento, suas refeições, seus silêncios, está atolada em um presente marcado pela morte de sua missão ou sua sentença. Mas parece que ela não se preocupa com essa missão/sentença. Kundera diz que para Kafka a punição procura a culpa. Ao contrário do que acontece com Raskolnikov, que está buscando a punição para seu assassinato, na literatura de Franz Kafka, os personagens buscam as razões para a sua punição. Neste caso, a garota terrorista de Dia Noite Dia Noite, tem uma missão que é irmã da pena na morte. A morte está sempre lá, no fundo de toda a punição, embora a morte física não seja necessariamente o fim dessa punição. Mas o isolamento, a imobilidade, são formas de anular o "eu", de impedir a liberdade, no final, a morte é a abolição de todas as liberdades, sujeita a certos conceitos, é claro.

Em algumas culturas ou circunstâncias, o sacrifício da missão é uma libertação. Mas não sabemos isso no filme. A garota só vai para a morte. Não sabemos se ela se sente culpada e está à procura de uma punição (uma negação da liberdade absoluta), ou uma crença que busca o sacrifício (a busca da liberdade máxima). Parece que isso não é importante para os fins da história. De alguma forma, os terroristas podemos ser todos, cada um de nós, esmagados pela sociedade e pela impessoalidade de sua fúria.

Qualquer pessoa, parece-nos dizer o filme, pode explodir e se tornar um terrorista de si mesmo e dos poderes que nos dominam. Em "Conviction", Georg Bendemann termina se atirando no rio, condenado por seu pai, mas sua morte só machuca ao próprio Bendemann, é um ato de violência contra si mesmo e já. Em nossos tempos, no entanto, a violência da morte tem uma profunda conotação coletiva. Parece haver um vazio enorme onde todos são iguais. Os limites da individualidade foram apagados pelo poder que é a massificação de tudo. Na ausência do "eu", a morte deve ser coletiva. O sacrifício supremo do alienado exige uma platéia, um teatro, uma declaração de princípios que há de ser sempre coletiva. Assim, Dia Noite Dia Noite parece-me um filme independente profundamente kafkiano que vai além dos clichês do que chamamos sem pensar muito de kafkiano. É kafkiano minimalista e século XXI, kafkiano sutil e também muito profundo. Mas terrível, terrivelmente kafkiano.

Dia Noite Dia Noite ganhou o Director's Fortnight del Prix Regards Jeune. Assista no domingo, 15 de maio, no ciclo em homenagem ao festival de Cannes.

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Persepolis ou como a alma cai

por max 17. abril 2011 19:37

 

 

O filme Persepolis  (2007), dirigido por  Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi, é a história de várias quedas. Quedas políticas e quedas espirituais. Quedas na mais profunda escuridão humana e, talvez por isso, tanto o romance gráfico como o filme foram desenhados em branco e preto. O texto original é, realmente, uma obra artística da mais alta qualidade, um romance gráfico, em quatro livros, escrito e desenhado pela iraniana Marjane Satrapi (co-diretora da versão cinematográfica), que se inicia com a queda do Xá do Irã, em 1979 e, continua ao longo do processo revolucionário e de radicalismo islâmico que se iniciou no país após o governo monárquico ter sido derrubado. A protagonista é Marji, uma menina de dez anos, da classe média, que crê que pode falar com Deus (idêntico a Marx este Deus) e que também pensa que é a última grande profetisa depois de Cristo e Mahoma. Esta menina faz comentários muito inteligentes sobre o processo de mudança: a redução da liberdade de expressão, a volta ao uso do véu pelas mulheres, a proibição de escolas particulares e também do ensino de outras línguas; e outros muito fortes como o incêndio de um cinema com as pessoas dentro, só porque estavam vendo um filme estrangeiro, apenas um filme. Como disse ao início, Persepolis vai nos mostrando as quedas. As quedas na ignorância, alienação e a loucura de uma suposta revolução para o bem dos homens. Não obstante, apesar destas quedas, o personagem de Marji evolui e descobre Iron Maiden e o grupo ABBA e, também é enviada para estudar fora, onde poderá estabelecer incríveis pontos de comparação.

Trata-se de uma ótima adaptação do romance gráfico. Um trabalho que nos leva com um fino humor através da insensatez do homem, uma denúncia cinematográfica, uma voz que já percorreu muitos festivais de cinema e levou uma grande quantidade de prêmios, entre eles o Prêmio do Júri, em Cannes.

Persepolis, segunda-feira 16 de maio, com mais do ciclo em homenagem ao Festival de Cannes.

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Matadores de Velhinha ou a violência como uma forma de arte

por max 17. abril 2011 19:27

 

 

Joel e Ethan. Coen, seu sobrenome. Devo dizer para começar que são os meus favoritos. Que eu os sigo desde o primeiro filme, que Barton Fink abriu um buraco na minha cabeça. Que o melhor filme que Nicolas Cage já fez foiRaising Arizona (e também alguns outros feitos com Lynch). Que The Hudsucker Proxy  (algo assim como a história do hula hula) e The Big Lebowski  são duas obras-primas incompreendidas. Que Fargo merece seu Oscar enorme. Que The Man Who Wasn't There é uma das obras-primas dos filmes em branco e preto do mundo. Que No Country for Old Men é uma das melhores adaptações de romances que já vi em filmes. Que Anton Chigurh, interpretado por Javier Bardem, é um dos maus mais assustadores do cinema. Os irmãos Coen são contadores de histórias e, têm talento, genialidade, para sair do lugar-comum, para criar personagens diferentes. Eles são comerciais? Às vezes sim, às vezes não. Todos os seus filmes têm um ar de diversão e peça original que muitos gostam. No entanto, também é verdade que os Coen não fazem concessões, apesar de contar histórias "divertidas" sempre estão à procura de seus caminhos, dos seus próprios gostos, da sua própria saída, de ir mais além. Os irmãos Coen gostam de violência, algo francamente comercial, mas a violência que eles fazem tem diferentes matizes, não está em conformidade com o efeito especial. A violência nos Coen é uma exploração, é a busca da alma humana. Violência, jogo da vida e da morte, manifestação do homem, de sobrevivência e destruição. Quando as coisas são entendidas dessa maneira, a partir do pensamento e da arte, a violência não pode ser o fim para ter mais audiência. Nos Coen, é um meio para falar do homem. E eles fazem isso com humor, com acidez, beleza e histórias verdadeiramente originais. Matadores de Velhinha (The Ladykillers, 2004) é um filme onde mora a violência. Nenhuma violência é mais silenciosa, mais venenosa, que a violência exercida pelo roubo, essa violação que também costuma esconder a máscara, a sedução, o engano. Baseado no filme original de 1955, dirigido por Alexander Mackendrick e estrelado por Alec Guinness e Peter Sellers, os irmãos Coen estão fora do ambiente de Londres e vão instalar os seus personagens no Mississipi, na casa de uma preta idosa com muito caráter. Lá estão eles com seus falsos instrumentos de música e o professor de mentira com seus asseclas, toda uma galeria de personagens típica dos irmãos Coen. Humor e violência, humor e personagens, o humor e a maravilha que causou sensação no Festival de Cannes e acabou dando a eles o Prêmio do Júri: Irma P. Hall pelo seu desempenho e a Palma de Ouro para os irmãos Coen.

Matadores de Velhinha, na terça-feira, 17 de maio na série de filmes premiados em Cannes.

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Gomorra ou o verdadeiro horror

por max 17. abril 2011 19:19

 

 

É muito conhecido o que aconteceu com Roberto Saviano após a publicação de Gomorra em 2006. O livro prova como um boato pode alcançar a soma extraordinária de dois milhões de cópias vendidas. Mas cuidado com o que desejar, porque você sabe o que vem. A Camorra napolitana, contra a qual Saviano dirigiu o seu livro, incomodou-se (muito natural que se incomodasse) e as ameaças de morte chegaram. O governo colocou guarda-costas para Saviano e finalmente, descobriram que planejavam acabar com a vida de Saviano num ataque espetacular e instrutivo. O escritor-jornalista teve que sair da Itália em 2008. Muitos o consideram um herói nacional. Umberto Eco comprometeu-se a ratificá-lo.

Com todo essa história de pano de fundo, Max, apresenta no mês de maio, no ciclo de Cannes, o filme que tem o mesmo nome do livro. Gomorra (2008), dirigido por Matteo Garrone, recria histórias de ficção com uma câmera documental que visa justamente fazer o espectador lembrar que está diante de alguns fatos baseados em uma terrível realidade. Um filme dramático, difícil, cheio de jovens desesperados, de violência terrível, desespero e horror. Danos, benefícios, glória e medo, a máscara e o real, está tudo lá nestas cinco histórias: perda da inocência, o sonho falso de jovens brincando com o mal influenciados por filmes de ganguesteres de Hollywood (que fazem com que os verdadeiros ganguesteres fiquem como uns tolos diante da platéia), os negócios francamente horríveis e imorais (resíduos tóxicos jogados no sistema público), o dilema entre a traição e a vida; o trabalho de um grande costureiro, que está relacionado com a máfia chinesa, também em conexão com a terrível Camorra. Tudo é uma mostra da vergonha humana, um museu de horrores expostos por Saviano, que por sua vez, expôs o diretor Garrone na telona.

Gomorra venceu o Grande Prêmio do Júri em Cannes. Assista este excelente filme na quinta-feira, 19 de maio, no ciclo de filmes premiados em Cannes que Max tem preparado de forma especial, para coincidir com a 64ª edição do festival.

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